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As pessoas que foram às ruas

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por Daniel Baz dos Santos

(em repúdio aos que apoiaram o golpe)

As pessoas que foram às ruas não costumam andar pelas ruas. Há um defeito nas ruas de feder e de sujar e há muita gente pelas ruas que fedem como as ruas e são sujas e são feias como as ruas. As pessoas que foram às ruas não construíram as ruas. Por isso, não entendem o fluxo das grandes proporções, dos veículos, dos bombeiros, da desnutrição aparente, da pressa que também é sono, do sono que também é fé.

As pessoas que foram às ruas não conseguem conviver com o ininterrupto revezar de eventos das ruas, com as cores frágeis, como coágulos, que mancham os arranha-céus, as roupas e, em esquinas agudas, as falas desmoronadas dos pedintes. As pessoas que foram às ruas não protegem as ruas. Mal sabem do azedume tocado a hálito, a decepções precoces, a má genética, que há anos vêm enrijecendo as paredes mornas.

Mal sabem da violência de certos becos e da irresponsabilidade com que o céu afla, pendurado em algum edifício de alguma multinacional. Os que foram às ruas não entendem da chuva dentro das botas, não sabem do calor com que o crepúsculo entorna avenidas tristes, nem da neve com que a noite adorna o peito dos tuberculosos. As pessoas que foram às ruas não trabalham nas ruas. Pouco entendem do jejum de cada dia, da inconveniência do amor diante do ponto diário, do bater do ponto, do estar a ponto de estar na rua. Quem foi à rua, nunca esteve no olho da rua, nunca esteve de molho, nas filas de contratação, a carteira inchada de fotos 3X4, de Curriculum Vitae, o sangue sem força sequer para a miséria.

As pessoas que foram às ruas não usam das ruas. Não podem entender a melancolia com que os aposentados esperam os ônibus lotados, dentro das mãos a ressaca dos dedos, a morte, à prestação, em cada porção de fracassos requentados, a refeição ruim e pouca, a saúde ruim e pouca, a desistência das cores, o desossar da esperança.

As pessoas que foram às ruas não se alimentam nas ruas. Quando as crianças famintas provam o sal das vitrines e aceitam a língua como o látigo dos dentes, e exibem um talhe de terra onde antes carregavam palavras, elas não veem. As pessoas que foram às ruas não dormem nas ruas. Quando os mendigos alongam o escuro para aquecer os pés, elas não veem. Quando as sirenes turbam os cadáveres dos negros e quando os gritos inauguram outras horas, amoladas nos ângulos íngremes que sustentam as pontes, elas não ouvem.  E se as prostitutas trazem nas pálpebras o silêncio das pedras, e não há promessa que esvoace os vestidos ou que limpe a lágrima, nada disso chega às pessoas que foram às ruas. E se caem operários dos prédios, para se perderem nos canteiros alagados de dores, nos quintais enfumaçados por vozes débeis desatadas, elas não sentem. E se os taxistas trazem na mandíbula esguia um pequeno milagre metade verbo, metade sede, elas não ligam. Os que foram às ruas nada compreendem dos que usam a fome como contrapeso, equilibrando os músculos tocados de frestas como velhos frutos. Dos que estocam vazios para esconder a raiva. Dos inválidos sem assistência, do chuveiro queimado nos lábios, do esgoto à vista nos pelos, da higiene ruidosa e escura das unhas mal cortadas de todos os que sempre estiveram nas ruas.

As pessoas que foram às ruas têm medo das ruas. Nada os assusta mais do que a manada de olhares que desagua em suas joias, em suas carteiras, em seus cintos de couro, em seus relógios de ouro, na pouca blindagem da pele. Aterrorizam-se ao pensar que o cardume de mãos pode tingir para sempre seu perfume, que o coquetel de odores pode abolir de vez a correção de sua gramática, a marca do seu tênis e o clareamento dos seus molares.

Quando os ambulantes assoam o nariz, eles temem. Quando os motoristas bebem álcool, eles tremem. Quando as empregadas têm filhos, eles surtam. E todo ranho, toda cachaça, toda placenta escassa vai dar nas ruas. Todo aborto clandestino, o sabor das cáries, a caspa, as dívidas, as camisinhas usadas terminam nas ruas. Os furos nas meias pontilham a manhã. A neurose dos pobres. A frutose dos pobres. A cirrose dos pobres. A fimose dos pobres. Tudo o que faz das ruas um lugar inabitável. A necrose dos pobres. As pessoas que foram às ruas foram para não ter mais que voltar às ruas. Foram às ruas para nunca mais precisarem se importar com as ruas. Os que foram às ruas já desistiram das ruas. Fizeram delas uma passagem (talvez uma ponte?) de volta para sua predatória glória.

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Matar um rio

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por Daniel Baz dos Santos

Para matar um rio não basta estar errado. A lógica do erro não alcança a falência da matéria. Para matar um rio é preciso abandonar todas as moradas: o nome, a larga canção, a diminuta estrofe e suas persianas finas, as perfumadas desculpas.

Para matar um rio é preciso esquecer certas coreografias: do abraço quente, do peito aberto, do olho vivo. É necessário ignorar onde pasta o sangue e gastar todas as funções da pele. É preciso admitir que a noite não tem mais saídas e agora pesa como uma joia velha; que o coração é só um gemido obsceno e tóxico e as mãos desamparadas pendem inúteis como entranhas. Urge confessar que tememos um céu que nunca explode, que temos pânico da ardência dos livros, das línguas que se sacrificam nas sílabas, das frestas que iluminam o sexo e dos fedores que adornam a boa vontade.

Agora o que mais querem os homens? Já golpearam a aurora com janelas que mais parecem feridas postiças a guiar os suicidas. Já conduziram a álgebra para as arquiteturas possíveis, para as rotas transitáveis e esqueceram o sonho sob os gritos e as rezas. O que mais querem os homens, se as estrelas estão duras e ásperas como um teto qualquer e as cores nascem com defeito, servindo como âncoras a derrubar os objetos preciosos da casa? Se existem raízes frias que se confundem com rugas, neutras e desconfiadas e inquietas como raios. Se a brisa fresca ressoa em nosso peito como uma frágil superstição. O que mais querem os homens?
Matar um rio. Não dominar o rio, não vencer o rio, sequer beber o rio. Não colher o rio, apenas matar o rio. Há fantasmas que se abastecem do que não creem os olhos e eles especulam o mutismo ao redor de meu rosto. Mataram um rio. Não uma pessoa apenas, não uma comunidade apenas, mas toda uma lógica assassina que vem mantendo nossa voz morna e salobra e tem despetalado nosso canto. Quem matou o rio não foi uma circunstância geograficamente específica, temporalmente limitada, antropologicamente plausível e socialmente previsível. Mataram um rio e é como se tivessem matado todos, todas as raças e sedes em uma única aniquilação.

Matar um rio! Depois será alvejada a aurora, será apunhalado o crepúsculo. Usaremos suas patas de bengala e seu bico de farol. Trairemos as montanhas. Colocaremos no lugar dos jardins e dos cavalos a flora prateada dos relógios. Envenenaremos a noite, que cairá uma última vez dentro dos nossos olhos, entoando triste seu voo final. Depois açoitaremos os mares, como fez Xerxes, caçaremos os mares, atiraremos redes que deixem os peixes e capturem o pélago para com ele engolirmos, de uma vez, todos os amargos. Escamaremos o mar para exibir seu corpo flácido em algum museu, ao lado das moedas e dos automóveis que caíram em desuso. Em seguida, abateremos o escuro para, com sua penugem, desbotarmos a nudez. Ao fim, cravaremos nossos dentes na terra, indecisos e inquietos, sem termos muito o que fazer de nosso paladar e vocabulário.

Para matar um rio é preciso esvaziar os espelhos. É preciso atear fogo às nuvens e interromper a estrada de pássaros por onde passa o poente; matar o vento a pedradas e, no cadáver inerte, colher letras escuras e oferecer aos famintos; colocar uma concha ao ouvido e escutar o silêncio de todas as cobras trocando subitamente todas as peles; descascar todas as poças e desfolhar as asas de todos os açudes.

Antes foi que morreu o rio, não percebem!? Não o Tâmisa, não o Ganges, não o Nilo nem o Sena, mas tudo que ousou hospedar o homem, tudo que serve de estada aos nossos desejos e expectativas. Há um arrepio dentro da terra. Há em tudo um susto de ter riquezas. Há no mundo um pavor de ter valor. Os animais domésticos e as feras noturnas aproveitam-se destes vãos de luz e silêncio que os homens deixaram intactos e esperam o fim, o inevitável fim. Não o Mackenzie ou o Congo, mas, obviamente, o Mackenzie, o Congo e o Yangtze. E não o Mississipi. E não o Volga. Mas, naturalmente, o Mississipi e o Volga. Mataram um rio, percebem? Não morreu de cansaço, ou de velhice e frustração. Foi morto e só.

Como se matássemos uma voz, como se poluíssemos uma veia larga, larga como uma garganta e completa como um fruto. E matamos tudo isso. E não morreu só o rio. Morreu também a vontade do rio, os desejos do rio. O raciocínio das águas, sua teimosia, controle e prioridades para sempre exilados na geometria seca do luto. A lágrima não terá mais potência, o suor será um destroço menor dentro dos artesanatos do desejo e a chuva não terá mais sabor. Já agora se estende, e falo daqui de Rio Grande, tal qual um campo cinza, depois de definitiva guerra.
Um rio nunca enche de fato o mar. Essa é a maior utilidade do rio. Não ser jamais aquilo que se torna. Um rio vivo é espera bruta e, na espera, alcança tudo o que nunca poderá ser e, por isso, nos ensina a vida. Morrer não tem tradução. Matamos um rio. Quando perceberemos que ele passava por nós?

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Crônica originalmente publicada em 27/11/2015 no jornal Agora, de Rio Grande, RS.

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Insônia

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por Alessandra Almeida

Pra tentar chamar o sono resolvo ler algumas inutilidades na Internet. De repente…  Surpresa! Esbarro na notícia de que pessoas torturaram até a morte um menino de 13 anos acusado de roubar uma bicicleta. O que faço? Não abro. Só a manchete e a imagem paralisada foram suficientes pra aterrorizar minha a mente e espantar por completo qualquer vestígio de sono. Meus olhos me traem e em destaque, leio sem querer, alguém defendendo o ato.

Resultado: descrença! Pra não dizer, revolta. Bom, acabei dizendo. Enfim…

Na cabeça ecoa desaforos a serem ditos ao indivíduo. Respiro. Tento pensar em outras coisas. Mas… Não cessa.

Solução? Tentar colocar pra fora de alguma forma.

O que faço? Escrevo:

Criatura! Sim. Você que tanto defende o “olho por olho”. Chega aqui… Façamos um acordo. Nasça em uma família sem estrutura financeira e psicológica.

Viva em uma sociedade que esfregue na sua face todos os dias, desde o momento de seu nascimento que você não é gente.

Cresça em uma sociedade que todos os dias te diminua por não ter condições de ter as coisas caras e de marca. Seja analfabeto. Porque aqui camarada… escola que não consegue alfabetizar é mato.

Chegue em casa e encontre somente sua mãe, muitas bocas e pouca comida.  Ou melhor… numa casa com vários irmãos, pouca comida, com uma mãe que trabalhe fora e com um pai que te espanque jogando em você todas as frustrações de uma vida.

Viva numa sociedade corrupta, com pessoas que vomitam moral e honestidade, mas que na primeira oportunidade dão seus jeitinhos pra tirar vantagem do outro e de situações.

Ande nas ruas. Não quero te alarmar, mas vou avisar porque sou legal… As pessoas não vão te perceber. Elas vão fingir que você não existe. Na mente delas você pertence a um universo paralelo. Bom… Isso até desconfiarem que  você de alguma forma invadiu o mundo mágico delas. Aí… Nossa! Bom…

Não se esqueça que nesse lugar os nativos querem ver pobres e negros na cadeia, mas que ricos filhinhos de papai, podem roubar e matar numa boa. É legalizado.

Depois de toda essa experiência, diga-me se concorda com tal atrocidade. Isso se chegar vivo até esse momento, porque durante essa caminhada, alguém pode te confundir com algum larápio e te matar sem que sua pessoa possa expor suas impressões sobre nosso experimento.

Aí, depois disso tudo,  quero ver você dizer que tem que ser assim mesmo… “Por que começa roubando bicicleta aqui e logo tá matando”. Quero ver continuar afirmando que “o mal deve ser cortado pela raiz”.

Por essas e outras que a cada dia que passa venho preferindo assistir séries com super heróis. Nelas ao menos alguém defende os indefesos, já na realidade dos pobres mortais…

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Sobre o que escrevo e onde publico

atualizado 31 março 2015 Deixar comentário
Autor de ‘O balcão das artes impuras’, Carmargo Junior escreve desde 2007

por Volmar Camargo Junior

Escrevo poesia desde 2007. Iniciei numa oficina de escrita, na internet mesmo, com um grupo que, posteriormente, veio a criar a Revista SAMIZDAT. O foco da oficina era, de fato, a escrita de contos. Numa das atividades paralelas, acabei participando de uma proposta para a escrita de poesia, e foi ali que me encontrei. Comecei a publicar a produção em um blog, Um resto de café frio. Minha relação com esse espaço, para onde fluía minha produção, era que, um dia, ele teria que acabar: não pensava no blog como o meu espaço na internet, mas como o lugar daqueles poemas, daquela época, daquelas experiências. Como um livro, enfim. Em 2010 encerrei o Café e iniciei, logo em seguida, o O balcão das artes impuras, do qual fiz uma seleção para ser publicado em formato impresso (O balcão das artes impuras. Rio de Janeiro: Multifoco, 2012) (Clique aqui para adquirir a obra). Na mesma dinâmica, seguiram-se o Verbo, entre 2011 e 2012; o Pragas urbanas renitentes, entre 2012 e 2014, que contém os  poemas  que considero mais maduros. Em 2013, dei início projeto do Dicionário giratório, com poemas mais experimentais, em que lido com a ideia do processo de escrita, o aspecto visual e orgânico do texto sobre o papel, boa parte deles escrita numa velha máquina de escrever. Nesse percurso, evitei a filiação a alguma estética, ou formato, ou tema. Nunca fui muito discursivo, pendendo um pouco para onde minha vontade, e as influências de cada época, me levavam. Sempre tentei homenagear os autores que amo, imitando-os descaradamente algumas vezes. Todavia, penso que foi em Pragas urbanas renitentes que encontrei o meu “idioma”. E, talvez por isso mesmo, tenha decidido dar um tempo na poesia.

Até o final de 2014, eu tinha muito conscientemente a ideia de que não conseguiria escrever prosa, simplesmente porque não gostava do que escrevia: achava-a artificial, inautêntica – diferente do que notava nos meus poemas. Todavia, no início de 2015, assumi como um “autodesafio” um plano antigo, que era escrever um blog só com narrativas. Assim, comecei a publicar o F417s-d1ver5.  Esses textos são postados diariamente em pequenas partes (um folhetim?), porque, de geral, são um pouco longos para a leitura na internet. Contudo, procuro publicá-los na íntegra em outras partes, como no blog do InVitro, coletivo de escritores de que faço parte, e também na SAMIZDAT.

Não saberia dizer se são “contos”, propriamente ditos. São textos em prosa, com mais ou menos um enredo, às vezes mais reflexivos que narrativos. Não saberia dizer se é “auto-ficção”, porque é ficção, e, ainda que boa parte das coisas que narro sejam desavergonhadamente inspiradas em fatos reais, tudo é atravessado pela fabulação e pelo pensamento sobre os acontecimentos, até tornar tudo estranho, inclassificável. Nesses contos, se é que são contos, da mesma forma que já vinha fazendo nos poemas, encontro nas coisas, nas pessoas, nos textos (não são tudo textos?) que me toca, e os reinvento. Acho que todo escritor faz isso, no fim.

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Saiba mais sobre o autor em Entrevista com Volmar Camargo Junior, um desterrado.

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