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O embaixador do Raul Seixas na Citi (parte 2)

atualizado 7 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Fulano de Tal era uma figura ímpar na Citi, não era político, nem artista local, mas era ilustre ou conhecido por muitos. Se bem que eu acho que ele tinha status de artista, sim, mesmo sem saber que um artista era.

Nos últimos tempos, não tinha ocupação fixa; vivia pedalando à toa de bicicleta. Figurativamente, tinha o braço esquerdo colado numa banda do guidão de sua bike e um corotinho (frasco de plástico) de pinga entre os dedos da mão do braço direito. Só bebia. Só bebia pinga, e como bebia o danado!

– Ah, Fulano de Tal, ilustre pilequeiro da Citi!

Fulano de Tal era uma figuraça! Quando me via, sempre acenava com um sorriso doce de quem compara a importância da vida a um copo de água ardente.

Ex-morador do centro, Fulano de Tal se foi; foi-se também sua barba descomunal; tinha uma barba enorme. Barba e cabelos de Raul Seixas. Biótipo de Raul Seixas. Não tenho certeza se gostava das músicas do Raul Seixas original. De todo modo, se comportava como um ilustre roqueiro do século 20. Daí o jogo de palavras.

Corto para as últimas notícias; as informações são atualizadas. Ouço de meu então quarto de hóspede familiar, que Fulano de Tal havia sido atropelado com sua bike por uma camionete, num dado quilômetro da citada rodovia do estado. Consta que a pessoa do automóvel não prestou socorro. Sem entrar em detalhes, oficiais da polícia afirmaram que a morte foi fatal. O querido Embaixador do Raul Seixas na Citi nos deixou com cerca de quarenta e quatro anos, salvo engano.

Corto por cenário anterior. Casa de avó é fogo de palha, alguém há de também concordar comigo; filhos e netos garantem a tradição de falar pelos cotovelos. Ouço outro diálogo, um de meus tios provoca uma pergunta: e a dona Olinda, como é que ela recebeu a notícia da morte do filho?

Minha avó: Ahhh agora mesmo eu vi ela ali [na famosa esquina das vizinhas], conversando com a Lurrrde; me parece que ela disse que já esperava a notícia.

Meu tio insiste: disse que esperava pela morte do filho, mas como?!

Minha avó responde: disse a Olinda que o filho havia lhe pedido algo, tempos atrás; disse: mãe, eu quero morrer primeiro que a senhora, eu não conseguiria viver sem a senhora…!

E não demorou muito pra minha avó tascar outro telefonema:

– Cúmadi Dita… sabe quem morreu?!

História longa, meus caros; por isso a abrevio.

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O embaixador do Raul Seixas na Citi (parte 1)

atualizado 7 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Passava férias familiares na minha cidade natal. Súbito, a morte de alguém conhecido me deixa indiferente, indiferente em relação à vida. Desta pra melhor foi-se embora o “reprê” ou o simbólico Embaixador do Raul Seixas na Citi. Morreu. Morreu numa noite de quinta-feira, atropelado na rodovia do estado, que corta o período urbano de minha cidade natal. O Embaixador do Raul Seixas na Citi morreu. Lembro-me: a cidade ficou em clima de luto. Morre um filho ilustre – os jornais noticiaram.

Acordo com a notícia, ou melhor, então me acordaram com um falatório de sexta-feira de manhã. Minha avó bradando aos quatro ventos, o Fulano de Tal morreu! O Fulano de Tal morreu! E têm certos idosos (alguém há de concordar comigo), têm certos idosos que falam um bocado! Não sei se por falta de assunto ou se pela natureza do organismo, pela língua solta! Falam tanto quanto uma criança eufórica quando acaba de ganhar um doce ou um presente de aniversário desejado. (Refletia, envolvido por um sono interrompido. Minha avó, em especial, adora como ninguém uma palavrinha falada – e eu sei que ela dificilmente vai ler estas linhas, por isso faço a ênfase. Mas, eu só tenho coisas boas a falar de minha avó materna, e que me perdoem outras avós falantes espalhadas por aí, a minha é a melhor avó do mundo de todos os tempos! E como fala essa minha melhor avó do mundo dos últimos tempos, como fala! Com dado talento, a veinha fala até pelos cotovelos.) A propósito: ouço minha avó no telefone:

– Cúmpadi Toninho… sabe quem morreu?!

O outro lado só ouve, eu suponho.

– Então, o filho da dona Olinda… é… foi atropelado no asfalto nesta madrugada… Isso…! Perto do Posto Pioneiro.

Madrugada. Por falar em madrugada, no momento em que eu ouvia a conversa de minha avó ao telefone, era quase sete da manhã; digo, era madrugada de uma data religiosa, feriado cristão. Estirado em minha cama, no quarto, então acordado, sem resistência acompanho a narrativa sobre a morte do Embaixador do Raul Seixas na Citi, o popular Fulano de Tal. Minha avó na sala, novamente. Outro telefonema:

– Cúmadi Fátima… sabe quem morreu?!

De repente, me vem à memória a última lembrança do Embaixador do Raul Seixas na Citi. Curiosamente, eu esbarraria com ele dois dias antes de sua data cabal, algumas horas antes de sua entrada para a posteridade. Como a vida é fugaz, Fulano de Tal?!

Refleti. Qualquer pessoa viva pode ser vista como um defunto em potencial; a vida e suas armadilhas. Fulano de Tal, o maluco de mais uma lucidez pouco reconhecida ou não pelos críticos citadinos. Grande Fulano de Tal! Aliás, Fulano de Tal? Por qual motivo o chamamos de Embaixador do Raul Seixas na Citi, então?!

(continua)

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A boca pequena da Citi

atualizado 6 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

“Ah”; mais um “ah”. Alguém se aproxima e cochicha algo em meus ouvidos.

Minto. Ninguém cochicha nada, não, nada de “alguém se aproxima” também. Simples. Acabo ouvindo coisas, sem querer ouço coisas, nesse caso, nada de mais ou fantasmagórico. Pelo contrário, o cotidiano ultimamente tem sido bem chato e realista. Por isso, seria correto então afirmar que as pessoas estão duvidando cada vez mais uma das outras? Sabe como é: se quer saber das “novas”, tente com o epicentro urbano mais próximo. No dizer de um certo periodista Jose Mochila, replico uma boca pequena.

Pelas bandas da Citi, minha cidade natal, a boca pequena circula à vontade? Acontece que a Citi se espichou para uma banda de sua circunferência original. Deve ter sido isso. Em todo lugar esta reprodução deve fazer sentido. O centro que não é mais o centro de antes, não deve ser mais o centro das velhas quitandas; mas ainda me parece influente como imagem documental. Não à toa, a boca pequena local lhe dá existência.

O centro urbano da Citi há de ser o eterno centro onde a boca pequena promove sua autoridade provinciana – alguém comentou na esfera central da famosa boca pequena da vez.

O que não significa que a consagrada boca pequena perdeu seu sentido real, o velho centro citadino deve continuar o mesmo, composto de duas ou três quadras com calçadas estreitas. Agora mesmo visualizo a boca pequena da vez circulando bem viva, viva como a atenção dispensada sobre o querido e tradicional centro citadino, o glorioso ponto de encontro das bocas pequenas concidadãs.

Citadinos, volver?! Todos de bocas pequenas, olhos grandes e ouvidos bem abertos – diz uma boca pequena citadina a afirmar coisas sem nexo mais do que qualquer locutor de rádio sem formação acadêmica e em início de carreira dita profissional. Citadinos, volver?!

Abestalhados de plantão, experimentem ir ao centro da Citi, e em estado sóbrio, para constatar a força simbólica de corneta emprestada de torcedor de futebol.

Em específico, vejo a lotérica do Didio aberta; tal estabelecimento fica no centro. Noto uma fila quilométrica que todos fingem não gostar. A boca pequena da Citi adora filas extensas.

Dirijo-me a uma boca pequena sem dentes na parte de cima. Fala boca pequena banguela!? Provoco mentalmente, desembesta aí boca pequena banguela!? Não demora muito e mais um “ah” é pronunciado.

A boca pequena me disse que ouviu dizer que querem fechar o comércio local a partir das 23 horas (verdade, eis um registro de época). Vão soltar os cachorros – reforçou a boca pequena. E não faz muito tempo que ouvi esta barbaridade de uma boca pequena – acrescentou a boca pequena numa tentativa de não se fazer como tal boca pequena. E a bocuda disse mais: vão incentivar o uso da ronda a torto e a direito pra cima de quem se atrever a sair de casa em “horário impróprio” para espiar a cor da lua em céu aberto! Esta ideia sombria só pode ser coisa de boca pequena profissional, eu pensei.

Afinal, o que propaga a tal boca pequena? Pânico e repressão depois da meia noite.

Ou melhor: é o seguinte: se o verdadeiro inventor deste “telefone sem fio” não vier a público e defender a sua “tese” em alto e bom som, a boca pequena do caralho a quatro então vai se consagrar ainda mais.

Silêncio. Barulho de grilos na quiçaça ali da frente.

E depois não vão dizer por aí que eu fiquei com a boca fechada, vão?!

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Previsões astrológicas

atualizado 6 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Quem é que tem coragem de admitir em público que acompanha previsões astrológicas? Eu, por exemplo, (só) dou crédito para o Quiroga. Ao menos antes de me tornar um jornalista aposentado, eu passava quase todos os dias na Câmara de Vereadores da Citi (a minha obsessão de cidade natal), para consultar a edição mais atual de jornaleco de Família do cavalinho. Ops! Eu quis dizer… que eu passava? Isso, eu passava, eu lia eu rezava.

Dentro da chamada “casa do povo” citadina, havia (e creio que ainda há) uma cabine de vidro que oferece existência à recepção. Ainda posso ver uma cena: de uma fresta surge um sorriso sempre bem apessoado pra afagar os visitantes; do outro lado da repartição transparente, duas ou três servidoras de narizes amigáveis. Entre elas, se posicionava a liderança e a experiência de Dona Ivoninha – curiosamente, é a mesma pessoa que foi minha professora na quarta série. Transporto-me então para aquele retrato remoto:

– Dona Ivoninha, posso ler o jornal?

– Claro, fio, pode ler.

Dona Ivoninha sempre usava o mesmo recurso verbal. Sim, eu também fazia a vez do meu jogo de palavras. Quando não falava, minha ex-professora de Estudos Sociais sugeria um aceno positivo com a cabeça. Claro, fio. A sua interlocução sempre ressurgia em meu imaginário como uma mensagem pessoal e amiga:

– Claro, fio, pode ler.

Valia-me de uma rotina. De segunda à sexta-feira, variavelmente entre as 12 e 13 horas, eu propagava a minha condição citadina de leitor de jornal – muito antes de eu pensar em ser um velho ranzinza – nas dependências da “casa do povo” local. Quem não me conhece (eu imagino), deve pensar que eu era (ou que ainda sou) um “desocupado social” ou quem sabe o quê ou mas qual, fio? Se bem que… na casa do povoda Citi, os desocupados sociais também são eternamente bem-vindos!

Assegurava-me: o povo citadino, sempre muito bem servido este povo citadino. Na legislatura de 19 lá vai bolinha, inclusive; quero crer ainda que a Câmara da Citi foi e é, por excelência, a “casa do povo”, e estará sempre aberta para a comunidade em geral! Este jeito de falar, aliás, é mais que um “lugar comum” no universo dos discursos de políticos tradicionais, que eu reconhecia nas páginas de um jornal.

Aliás, agora mesmo me vejo em direção a um jornaleco, o diário conservador que não fica em cima do muro. Minhas mãos então pinicam de ansiedade para tocar o caderno de Política, o de Esportes e, é claro, o de Cultura.

Em segundos estou com o jornal na altura do nariz, compenetrado nas últimas fofocas de Brasília; numa passagem rápida, cuido também das manchetes sobre futebol; por fim, vou pro pouco sisudo Caderno B. Disfarço que estou lendo uma resenha crítica.

Só recobro a normalidade da mente, quando termino de ler a pré-visão de meu signo.

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Carta a Maciel Filho

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Caro Maciel,

lembranças suas; saudades da época do blog “Alô Alô repórter!”

Ria sempre da ironia de suas crônicas a respeito do selecionado da Citi, na ordinária Copa Interestadual de Futebol! Não consigo esquecer a expressão “O centro avante que não faz gol”, o lendário camisa nove Vadinha! O cara era mais torcida que jogador, carismático pacas! Nada de gol,  o menino, mas era titularíssimo da equipe.

O que falar da eterna feição de deboche do Todinho rente ao alambrado do Estádio Municipal?!

E daquele dia que o Gordo invadiu o gramado pra bater no juiz? Finado Gordo… um dos torcedores mais fanáticos que a Citi já teve! Ele ia ao delírio quando você, Maciel, tirava uma foto dele com a sua kodak 3.2 pixels pra postar naquele famoso blog sem audiência.

Ah, velho…

(…)

Velho, estou estranhando a calmaria deste tempo nosso, amigo. Paz é subdesenvolvimento, paz é subdesenvolvimento! Lembro-me de quando você, meu amigo, subia num caixote de feira imaginário na Universidade E*** e proferia para meia dúzias de seguidores este mantra perfeito dos inquietos.

De fato, qualquer conforto é uma bosta; a acomodação, sabe como é, não leva a lugar algum. Daqui a pouco, a morte vem e o que pudemos fazer de decente enquanto consciência humana? Hein? Caralho!

Penso no seu caso, Maciel, você, você que morreu jovem, tão jovem, vinte e poucos anos de absurda razão de si. Filho que morre antes de pai e mãe compromete o sentido da vida ao plural.

Aquele Monza verde escuro que lhe amassou o crânio na passagem pela via de pedestres no centro da Citi ainda não foi localizado? Faz quanto tempo mesmo aquele acidente, chamado pelo jornaleco local de “fatalidade do cotidiano”?

Não entendo, meu amigo, não entendo mesmo, porque é que você não me responde mais?

M.R.

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Sinistros da modernidade

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

A depender de alguns comentários, não saímos mais de casa para coisa alguma. É a perseguição pessoal, as enchentes, a violência urbana, a bolsa de valores e seu excesso de cinismo, as Redes Sociais, um mal súbito que pode acometer a nossa vista numa esquina qualquer. A depender desta análise, o mundo está fechado com as desgraças!

Na real, se nada está bem, (ao menos por um tempo) deixemos de sair de casa, nos concentremos nas extremidades das paredes de uma residência sem remédios e ventilação apropriados; que tal a resignação de estudar sistemas verbais desgastados em livros de linguagem técnica em desuso ou ficar em casa se entretendo com a miragem de leituras e comunicações imaginárias, cômicas ou egocêntricas? Com os olhos tontos pela ilusão do desejo desmedido de um dia nos sentirmos física e psicologicamente seguros.

Ótimo, não posso mesmo correr o risco de vida, sair de casa hoje em dia nem pensar. É perigoso demais respirar o pouco que nos resta de ar. A situação se agrava se a maior cidade da região fica fora de nossos padrões de sociabilidade: os riscos (calculáveis ou não) de caminhar pelas extremidades desta publicitária cidade relevam qualquer mensagem de gravidade social depois das 22 horas. Constatação: não posso andar da forma como andava no período de infância da minha querida Citi. Meu sossego de dias anteriores; tempos atrás, eu poderia perambular despreocupado por calçadas estreitas, por ruas não asfaltadas e com a cara suja de terra.

Agora não mais, agora todo cuidado é pouco. O exercício diário de abrir e fechar os olhos… Um sinistro pode acontecer a qualquer instante, pode acontecer desta paranoia fazer sentido; não é que podem me levar a suposta dignidade de alguns anos vividos? Não é que posso me deparar numa situação desconfortante? Não é que posso ser mais um caso de reconstituição de cena quase inenarrável? Você também leitor, você dileta leitora que inventou de se comprometer nestas linhas incitadas, quem manda vocês darem bola para o apresentador de programa policial?! O diabo é que muitos concordam com esta ideia.

Também posso vacilar entre o silêncio coletivo e a dramatização de ficar quieto num cubículo reproduzido da literatura do final do século 19, como um falso-defunto que remexe os temores dos próprios membros num simbólico caixão tamanho-família. É preciso saber se defender desta forma moderna de cotidiano ou o risco, se é que não vivemos um exagero de teorias do progresso.

A lei da selva, a lei do menor esforço, a falta de lei que possa sustentar o desejo de todos. A façanha de pensar nisso tudo sem parar para tomar uma bebida estimulante. Para os modernosos que acreditam em instante derradeiro: acabei de ver um animal peçonhento a reivindicar o seu devido espaço de vida numa janela conhecida de computador; entre ele e nós, quem pode mais se movimenta.

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Papagaiagens

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Em “Onde os fracos não tem vez”, o personagem do espanhol Javier Bardem mata impiedosamente suas vítimas; munido de uma “espingarda” movida a gás – se é que minha memória fotográfica passa no teste dos especialistas do gênero –, o assassino se apresenta com uma frieza incorrigível.

Impressiona quando o sujeito tira – na moeda – a sorte (entenda-se o direito de viver) de um vendedor de um estabelecimento comercial à beira de uma rodovia. “Trata-se de um velho capitalista qualquer e inconsolável”, diria um amigo socialista. Diante do assassino não declarado na cena, o comerciante parece transmitir o mesmo susto ou espanto que eu tive, e que – acredito – outros que assistiram a obra cinematográfica também tiveram.

A frieza singular do assassino impressiona pela paradoxal admiração artística que ele pode transmitir na tela; sem dúvida, o comportamento do personagem é de um ser fora do comum, comovente.

Depois de um diálogo em tom filosófico, em que o comerciante é questionado sobre a origem de seus bens materiais – herdados graças ao parentesco da mulher – uma moeda é alçada ao ar pelo outro, sob a atenção do olhar convulsivo de um homem sangue frio.

Cara ou coroa? Não me lembro bem, mas a vida “salva” do comerciante representa, para o cineespectador, uma espécie de alívio de imersão! Quer dizer, a tensão da cena coloca o público no lugar da vítima em potencial, salva por um gongo. (Olho ao redor: não noto sádicos por perto; os sádicos citadinos ou não se escondem neste exato momento; nada como uma falsa sensação de vizinhança.)

Por uma tosca associação de ideias, o filme – que rendeu o Oscar de 2007 na modalidade ator coadjuvante a Javier Bardem (na prática, nem tão coadjuvante assim) –, me trouxe a lembrança de uma suposta polêmica em torno da obra de Machado de Assis.

Papagaiam alguns que Machado não deu a importância devida à figura do escravo no conjunto de sua obra; o dito Bruxo do Cosme Velho teria sido supostamente um mulato com mentalidade de pessoa branca. Como dizia um falecido professor: uma discussão bizantina! Machado merece atenção, decisivamente merece abordagens menos sociológicas e fantasiosas.

Bom mesmo que a representação social da ficção seja diferente da não ficção ou da vida fora do texto. Do contrário, arrisco polemizar: o grau discutível de verossimilhança de representações sociais do defunto-autor machadiano e a imagem do assassino incorrigível do filme dos irmãos Cohen não teriam a menor graça.

Entre a mentira da verdade e a verdade da mentira, o que exatamente papagaiar?

Alguém se atreve a admitir um lado desta sentença sonora?

Se por acaso alguém inventar de falar da verdade…

Melhor. Paro por aqui, envergonhado. Papagaios não podem ter opinião própria.

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Ruídos vagos e misteriosos (parte 2)

atualizado 5 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Levo as mãos sobre as mãos de minha interlocutora para me certificar se o peso silenciosamente repousado nas pálpebras não passa de uma ilusão de ótica, e que… a julgar o valor do seu gesto, quem sabe eu possa atentar algum sentido diferente daquele provocado apenas pela chamada força própria ou por alguma razão involuntária da vida, um sinal estrangeiro aparentemente inesperado, uma espécie de escuridão póstuma que cobre a vista e intensifica a concentração de energias na direção de outro sentido específico: a audição.

– O jornalista aposentado pergunta demais, sabia?

Pensei num gracejo – isso normalmente acontece com os ex-jornalistas. Porém, veio-me um discurso de composição:

– Concordo, às vezes acontece perguntar.

As mãos femininas mudam de arranjo. Agora as pontas de seus dedos rabiscam sulcos rasos e zelosos na parte inferior de minha face, sugerindo uma representação diferente da do contorno original do queixo, como a intentar certo movimento de um desenho pré-fabricado pela natureza, e de origem muitas vezes incompreensível.

– Eu devo abrir os olhos?

– Jornalista aposentado, antes eu preciso lhe dizer algo.

– Necessidade?

– Necessidade, principalmente.

– Entendo.

– Você e sua mania nada secreta de sempre “entender”.

– Nem sempre… nem sempre concordo, como neste caso.

– Este seu tom aparentemente agressivo transparece leveza.

Falei difícil:

– Admito certo desprendimento de convenções, deve ser por isso.

Movimentos alterados. Os gestos de minha interlocutora voltam à forma inicial, e a escuridão que cobre meu horizonte temporariamente vedado ganha o acréscimo de uma camada fina e um pouco mais escura, em cuja projeção de imagem sugere a constituição fantástica de um aparelho protetor contra possíveis raios e luzes ultravioletas.

– A escuridão vai te manter em aparente calmaria e em ininterrupto estado de transe.
– É. Sinto até um iminente bocejo num sinal de rendição.

– Rendição; não entendi exatamente, meu bem?

– Não posso inferir muita coisa.

– Eu posso – disse ela.

– Numa dessas, até admito esta história.

– É verdade. Ruídos vagos…

– Algo sobre quem eu estou pensando?

– Você parece ansioso pra saber.

– Quero crer que, se eu abrir os olhos, a verdade aparece.

Na ausência de sua fala, eu emendaria sem mais dúvidas:

– Até parece que você é uma criatura de outro mundo.

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Ruídos vagos e misteriosos (parte 1)

atualizado 5 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Um salão vazio. Um anfiteatro. Não, longe disso, distante de uma representação de ruínas orientais. Lembro-me bem que de um clarão surge um parque ecológico tropical sem risco real de desmatamento. Logo, todas as árvores e objetos verticais são apagados da tela de imagens. Um retrato nativo. O visual remete a um campo de golfe desconhecido, gramado bem verde e devidamente ondulado, feito por encomenda para ocasiões especiais. O azul do horizonte se perde no limite visual de quem se posta como testemunha da mensagem. Era sentir a brisa do vento na pele da face e crer ainda mais na leveza da atmosfera. O vento. Suave, o vento leva adiante o pouco de imaginação que certos ruídos vagos e misteriosos me sopravam nos ouvidos… Até que vanço dois passos a dois passos de não esbarrar em lugar algum, penso num motivo satisfatório para não ter motivos além da conta. Não há de ter ninguém ao meu alcance neste cenário bucólico de borboletas e grilos. Curiosamente, a solidão quase absoluta me faz pensar que a solidão quase absoluta ou não me faz pensar seriamente nas pessoas ou me faz pensar no caos marcante que dá vida ao nosso mundo de conflitos internos e exteriores, um mundo abandonado e preterido por muitos.

Estendido no chão do mundo, impregnado de mundos em meus mundos. Estendido numa grama verde, eu bem que tento visualizar um mundo lá no alto da estratosfera e absurdamente livre de qualquer utopia.

Um de meus mundos então desaba do teto e se desmancha no ar, no exato momento em que fecho os olhos para me proteger de um receio de um possível choque entre a imagem que eu vejo e a imagem do céu propriamente dita. É só eu pensar em abrir os olhos que uma voz exterior presentifica um diálogo:

– Não abra.

– Não… abra?

– Isso. Não abra os olhos, por favor.

– Não estou entendendo. Quem é você?

Senti duas mãos seguras e suaves repousarem ao mesmo tempo em meu rosto.

– Não se mova jornalista aposentado.

– Mas como é que você sabe meu nome autopromocional?

– Ruídos vagos e misteriosos…

– Ruídos vagos e misteriosos…?

– Isso, ruídos que me sopraram nos ouvidos.

– É quem eu estou pensando… será?

– Em quem você está pensando, jornalista aposentado?

(continua)

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Para entendedores

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Objeto de pressões inúmeras de todos os lados, cantos e recantos; alvo de tiroteios simbólicos de interesses alheios, escusos ou legítimos; abajur sem lâmpada dos ditos indefesos, das manias e aflições; uma figura sem decência etc. etc.

O que mais tagarelar exatamente da pele do próprio repórter genérico, uma espécie de autorretrato de infelicidade?

Pra ser franco, se eu escancarasse um 1/3 do que eu gostaria de escancarar sobre os bastidores da atividade jornalística – ao longo de um dispensável tempo de trabalho –, iriam me tomar por um sujeito extremamente fora do comum e contra o ser humano. (Como se eu já não o fosse um aposentado das pequenas redações.)

Não posso dizer exatamente? Pois é o que mais se reproduz no dia a dia.

Sigilo de fonte? Sem essa. 95% do chamado sigilo de fonte é omissão de mau-caratismos, leviandades, vaidades descontroladas, interesses escusos, proselitismos, atos subservientes e… e… e…

Sem ambição pra fazer fortuna fácil e o jogo matreiro dos sistematizadores de posteridades, atiro-me pra situação agora há pouco suspensa no ar:

– A falta de saída, o confronto contra o mundo, (quase sussurrando…) um patético ponto de vista à margem da história das santas civilizações.

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