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Historinha de amor medieval – cap 3

atualizado 1 dezembro 2017 Deixar comentário

por Francis Macabeo

A liberdade, essa tal liberdade que depois virou estátua, ainda era apenas espírito. Um espírito que morava dentro daquele homenzinho. Sim, homenzinho, pois era um homem pequeno, embora não chegasse a ser um anão. Sua altura era uma peculiaridade, mas tinha outra, seu nariz. Tinha um nariz tão grande que diziam os piadistas da época (sim, sempre existiram piadistas) que ele podia cheirar qualquer coisa que estivesse sendo cozinhada em outra cidade. Seu nariz era tão grande quanto sua memória prodigiosa em guardar fatos e histórias. Antonio sabia quem era o turco que havia chegado, sabia inclusive antes de todos o que ele iria fazer ali e por que o turco sumiu de repente. Sabia onde o grande senhor velho gagá Nepuceno havia escondido sua fortuna, aliás ele era o único que sabia, pois o próprio Nepuceno já havia esquecido. Quem era o homem que entrava na casa do grego Kastovis enquanto ele não estava ali e o que ele fazia lá só Antonio sabia. As verdades de todas essas histórias moravam em lugares da estrada por onde andava. Você pode perguntar como ele sabia que eram histórias verdadeiras? Antonio, certa vez contou para um certo alguém que ele tinha um método: se três pessoas contassem a mesma história sem alterar detalhes era verdade. Se o detalhe alterado fosse pequeno, era uma meia verdade. Antonio não falava, só ouvia. Quando estava sentado debaixo de uma árvore, do outro lado um padre revelava em oração histórias da cidade, quando dormia em uma relva, uma mulher conversando consigo mesma revelava o nome de seu amante. Além disso, havia o muro da sorte, sempre que estava ali, do outro lado existiam vozes. Eram vozes como a chuva, que caía sobre a terra molhando o solo, no caso de Antonio eram gotas que traziam histórias. Na verdade, ele nunca as quis, tanto que era um homem calado e sem disposição para o diálogo, mas como não podemos fugir ao nosso destino, as histórias não o abandonavam. Elas estavam ali onde ele não queria ouvi-las.

O muro da sorte, chamado assim porque um cego voltou a ver depois de encostar a mão nele, era o lugar de descanso predileto dos andarilhos. Foi ali que Antonio descobriu onde Nepuceno havia escondido sua fortuna, quando duas mulheres de vida quase fácil revelaram que o velho havia deixado no sótão da casa das meretrizes. Antonio não acreditou de imediato, pois ainda faltava uma pessoa para confirmar a história, isso aconteceu quando o próprio Nepuceno andando por uma estrada, lembrou pela última vez, antes de esquecer de vez, onde havia escondido seu tesouro. Gritou alto e alegre: “está na casa das putas”. Dizem que o velho foi até o templo da perdição atrás da fortuna, ali ele esqueceu não somente do que havia lembrado, mas também de quem ele era. Talvez se tivesse lembrado não adiantaria, pois estranhamente o templo da perdição estava maior, com arquitetura gótica, comparado às maiores e belas igrejas da época. Bem, ficou muito parecido com uma igreja, só faltando os sinos.

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Historinha de amor medieval – cap 2

atualizado 9 outubro 2016 Deixar comentário

por Francis Macabeo

Se fosse religioso seria melhor, pois na época as duas funções confundiam-se, mas não era nem soldado, nem religioso, nem água e nem vinho. De um lado, sem armadura, cavalo e espada; do outro, sem missão e indulgencias. Talvez o único fato que fazia pensarem que era um homem daquele tempo, época mística e religiosa, era a ideia de que talvez fosse um peregrino, talvez franciscano pela simplicidade das vestimentas. No entanto, não era peregrino de verdade, suas andanças não alcançavam céu algum, menos ainda a redenção da alma. Nessas andanças também não costumava falar com os demais, menos ainda pregava, se orava não sei ao certo, mas se orava é certeza que não fazia escondido. Na época falar com Deus só tinha sentido se o som fosse escutado por toda aldeia. Oração silenciosa veio depois, onde os homens fazem suas queixas e pedidos no silêncio de suas mentes. O fato é que não era peregrino, mas no medievo o que importava não era ser, mas se parecer com algo que fosse. Bastava para os outros acharem que ele era um cristão andarilho em busca da redenção, isso naturalmente tem exceções, Olága era uma delas.

Olága tinha atração por soldados e também religiosos, mas diferente da maioria ela percebeu logo que a peregrinação de Antonio estava distante do céu, mais próximo do que chamamos de vadiagem.

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Historinha de amor medieval – cap 1

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por Francis Macabeo

Era o ano de 1413, o mundo ardia entre pestes e guerras, batalhas entre santos e loucos. Em meio ao clima havia certo homem chamado Antonio, não era santo ou nobre, mas esperava da vida a oportunidade de revelar-se.

A oportunidade chegou quando passando pela porta de um palácio apaixonou-se por uma dama conhecida como Olága, um nome distinto e diferente, além de ser ela de uma beleza incomum. Seu rosto brilhava ao dia, como se fosse pertencente aos raios do sol, mas ao cair da tarde revela-se de olhar quase triste, quase sombra, quase negro. Quem na aurora da alma pode vangloria-se da dualidade do espírito, ser duas coisas? Podemos ser várias coisas durante a vida, mas tudo a cada tempo, mas esses espíritos que resolvem ser duas coisas ao mesmo tempo confundem a própria natureza.

No primeiro contato Antonio perguntou-a sobre o que mais admirava em um homem, então ela respondeu que os soldados são encantadores. No mesmo instante o jovem envergonhou-se de não ser soldado.

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