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A musa da Universidade de b.

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Olhem só o meu Minhocão!

Invoco-o, novamente, grandão como tal, em pé!

Viu, nada de virarem o rosto, hem.

Prometi citá-lo melhor, semanas atrás.

Dele, destacamos a sua estrutura física.

Meninas, nada de dobrar a língua agora, por favor.

A propósito: a sanha das universitárias de b., por meu Minhocão, é tamanha, que quando o sol bate forte (me desculpem: o sol sempre bate forte em Brasília), elas desfilam diante dele com os umbigos arrepiados, os decotes cavados e as coxas à mostra.

A fantasia só não é geral e eterna, caros leitores e caras leitoras, porque sabemos que o erotismo de meu Minhocão não vai além de um preâmbulo perturbador, agressivo e agora alvo potencial da censura de licenças poéticas.

Minhocão, o maior bloco de salas de aulas da Universidade de b.

O meu Minhocão e sua representação arquitetônica.

Sua estrutura de concreto é reconhecida, podemos reforçar; tratemos de uma minhoca pretensamente fixada num espaço privilegiado de Brasília, uma importante edificação postada num terreno por onde ganham existência grilos, moscas, pernilongos, borboletas, baratas, ratos, sapos, rãs, cobras, siris, pardais, jacarés, tartarugas, urubus e seres afins.

Já posso vê-lo distante, na nostalgia de seu formato de minhoca gigante a se perder num horizonte de fim de época esfumaçada. Sua imagem é de um fim de show musical, um show que nunca recebe bis da plateia, plateia que supostamente mal sabe levantar as mãos num gesto casado: a ilusão de um refrão popular somado à reverência alinhada numa ranhura de testa.

O ruído desse refrão inominado perde força aos poucos…

Aos poucos, a sensação é de que andamos na contramão da musa da Universidade de b.

A musa da Universidade de b., que surge ao nosso arrepio de pele.

A musa da Universidade de b., que surge num descarado gesto de excitação pública.

Ela vem logo ali, a favor do vento, como a princesa de meus sonhos conturbados.

Friccionem as mãos, garotos de plantão.

A musa vem por aí…

Quando ela surge, eu tenho que me declarar distante da vida real.

Quando ela surge, sempre surge um incômodo gostoso no organismo.

Os nossos encontros são quase sincrônicos e, vejam só, sem cumprimentos tradicionais.

Eis a ironia do destino.

Na medida em que eu me disperso de meu representado Minhocão, a gata de quadril vibrante dá as caras, bocas, pernas, coxas, ombros e lábios à luz do dia.

Ela passa perto de mim sem parar, sem parar, por capricho, sem me ver.

Passa e me deixa boquiaberto, menos ligado ao mundo social.

Percebo-a descendo em direção ao mezanino sul, um dos pátios principais da Universidade de b.

O andar daquela. Uma fuga quase instantânea de minha fantasia…

Na realidade, a fuga da moça só não é mais rápida porque eu não deixo que assim o seja.

De propósito, e sempre que posso, retardo a sua saída de cena.

Como a aparição se repete, faço-a permanecer além da conta dentro de meu olhar rútilo.

Ela e seus cabelos a esvoaçar pela força de seus próprios passos.

Os passos são de quem sempre está atrasada para uma aula qualquer.

Que importa as aulas neste instante?

Coço a cabeça a pensar na musa da Universidade de b., que passa dilacerante por mim, sem reconhecer esta minha mania mal compreendida de ser sem solução, sem reconhecer o seu fã incondicional e amante estilístico.

A Universidade de b. aparece sempre da mesma forma sensual e artística.

A imagem de aparição é sempre a mesma.

Quanto à moça…? Ela desce de um ônibus lotado, vindo diretamente de Marte.

Deus do céu!

É só ela descer de um busão que a minha vida ganha tons envolventes de romance postumamente hemingwayano.

É só a nossa musa colocar um dos pés num ponto de ônibus para o restante do mundo animal se dar conta de sua respectiva condição de paisagem.

Ela desce. A imagem da musa congela.

Minto. A imagem da musa ganha uma construção slow-motion.

A câmera fica lenta, o chão fica movediço.

Os movimentos agora são medidos, compassados.

O andar daquela soa um desfile de moda sem arrogância.

Nem mesmo uma despretensiosa calça jeans consegue disfarçar a definição bem contornada de sua experiência visual.

Suas coxas são…

Sua camisete colada aos ombros.

Sua costa ereta.

Sua nuca à vista.

Seus cabelos ondulados, suspensos por uma caneta transparente.

Aquele seu quadril…

Respiro um pouco para não parecer vulgar com meus pensamentos…

A auto repreensão imaginária surge no momento em que a musa da Universidade de b. passa por mim.

A necessidade de esperar o meu ônibus não me permite segui-la indefinidamente.

Por uma fração de segundos, só consigo sentir aquele perfume feminino a estimular a inconsciência de transeuntes.

A musa da Universidade de b. descendo apressada em direção ao Minhocão.

Na verdade, para mim, ela nem parece tão apressada assim.

Vendo-a desfilar, não há pressa alguma de o mundo acabar.

Não há…

Mas o Minhocão está à sua espera.

Por outra, uma universidade ou a fotografia de meu Minhocão está à sua espera.

Quem sabe um dia…

Vida longa, Universidade de b.

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Um retrato às margens de

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Pátios sem pisos.

A libertação de todos os nossos fantasmas.

Sem aulas? Recesso escolar? Greve?

Já não havia mais fofoca alguma às margens do Lago Paranoá.

A graça do cotidiano deu lugar a uma máquina sem organismo.

Qualquer sinal de vida que surgisse, ali, naquele abismo visual, podia causar uma explosão.

A Universidade de b. como uma franga depenada, sem plumagem, sem patas.

Diante de nossos olhos míopes, aquele quadro sem molduras.

As salas de aula fechadas, sem numeração definida.

Os corredores vazios, por estarem vazios, os corredores já não eram como antes.

Guichês sem os chefes de departamentos…

Todos fugiram para o Serrado, meu Deus?

Qualquer pergunta falada naquele momento seria interpretada como um monólogo inútil.

Onde foram parar os universitários e universitárias de b…,meus brinquedinhos?

Sem mais interrogações, os velhos personagens vagaram numa clima de deserto, apostei.

Mesmo. A esta altura, a recordação é de um lugar distante de nós.

Vejo agora um copo de caipirinha cair nos pés de um desconhecido. Seu chinelo de dedo melado fica com o súbito retrato de falso vômito. Um acidente. Testemunhei precisamente um sujeito que não consegue controlar os próprios braços!

Longe de pesquisadores complexados, a reportagem sem solução chega a um boteco sujo e escondido do sol, localizado numa cidadezinha ao redor do Plano Piloto. Chamam-na de cidade satélite. Talvez, para que os desavisados pensem que Brasília é como um planeta. Ou o centro do Universo. Ou a puta que pariu!, a saltar da língua de um indivíduo num instante de tensão.

– Vai querer o quê?

Domingo. Era responder ou responder.

Desejaria uma boa canção: letra modesta e som marcante; assim, eu não pensaria além da conta.

Que tal um poema de Bandeira? Parei de imaginar coisas.

Faltava-me uma passagem só de ida pra Pasargada.

Olhei pra cara oleosa do vendedor, travestido numa camisa cinza desfiada na gola; um sujeito com semblante pardo e preso a um olhar supostamente parado no tempo:

– Um vinho barato, por favor!

Pedi a bebida do sul do país, sem notar que estava mesmo fora de órbita.

No sul do país, a bebida é o vinho.

No sul do país, os vinhos baratos são bons.

Lembrei-me do Sul e da mania por emancipação federal dos sulinos.

– Quase ninguém bebe vinho por aqui – um sujeito ao lado cortou meus pensamentos.

Ameaçaria algumas palavras, mas sou logo contido pela falta de tempo pra reações.

A solidão é o verdadeiro senhor da razão!

É. Boteco é mesmo um espaço apropriado para filosofias.

– Aqui o pessoal só bebe cachaça – eu ainda tive que escutar.

Pra ser verossímil com o acontecimento, eu ainda tive que ouvir coisas a mil.

Abreviei-as. Um choque de civilizações, outra linguagem!

Outra realidade, outro modo de falar:

– A cachaça vem de Minas – fui devidamente informado.

Quem enxerga bem, seja onde for, pisa firme no chão e reconhece o solo onde está pisando.

Fiquei na dúvida, se era mesmo o meu caso.

O sujeito ao lado logo nota a minha cara de poucos amigos.

Observo-o sem intimá-lo, evitando um sabe-se lá o que pode acontecer se eu encarar muito.

O sujeito tinha a cara do vendedor.

Neste boteco, quase todos se parecem com o vendedor, logo deduzi.

O sujeito ao lado sorve fundo um gole de bebida de um clássico copo americano.

Nosso vizinho de mundo rememorado bebe como quem experimenta um remédio conhecido e apreciado diariamente, produto comprado sem nota fiscal e sem a necessidade de prescrição médica.

– Esta cachaça é da boa!

Da urgência do outro de ser visto publicamente, uma espiada atravessada.

Arrisquei-me com uma retratação.

A imagem daquele sujeito lembrava-me a de outros vizinhos!

Era a falta do que fazer.

Era a busca por uma razão de ser.

Era um conflito por reconhecimento pessoal.

Meu copo de vinho então cravou no balcão.

Ouvi um tlim.

O vendedor perguntou se eu queria mais alguma coisa?

O vendedor perguntou-me se eu queria mais alguma coisa.

Era o que eu queria; não necessariamente o que eu precisava.

– Este vinho é uma porcaria – ouvi mais uma manifestação crítica do sujeito ao lado, justamente no momento em que eu me preparava pra bebericar o pedido.

Cessei os movimentos.

Virei o rosto lentamente.

Fui logo aconselhado a experimentar de vez a dose:

– É barato mas é bom, manda ver, cara!

Depois desta, percebi que o sujeito ao lado queria mesmo conversar.

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Um mal súbito (parte 2)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Pedi água…?

Não me lembro se realmente pedi água.

– Nosss… gente, ele tá com os lábios roxos – uma fulaninha assinalaria bem próximo.

Se minha boca estava mesmo roxa, eu não podia ver.

Um drama danadogalera.

Os sentidos meio que paralisados.

Meus sentidos meio que foram sendo recobrados.

Aos poucos, pude notar que havia vida na Universidade de b.

As vozes aumentavam paulatinamente.

As vaidades humanas foram momentaneamente cessadas, eu podia apostar que sim!

Por um instante, uma multidão deixou de pensar sistematicamente em si para acudir um determinado semelhante de convívio diário. Explorei o máximo possível a minha posição de vítima protagonizante:

– De certo, faltou água no organismo dele – um tonto cogitou uma hipótese.

Faltava água em meu organismo. Se faltava água em meu organismo?

– Sai, sai! – Contrarregra logo procurou uma distração, tentou dissipar o conjunto de chupins ao redor de meu nariz. – Chispa, chispa – o amigo acrescentou.

Na posição de enfermo e testemunha da zorra, eu sentia na testa suada o carinho das mãos de Vagabunda.

Em poucos minutos, os chupins vazariam.

Ao lado, passei a respirar na presença do casal de amigos.

Ainda sem dizer uma mísera palavra. Sem abrir o bico, passei a pensar num motivo que me levara ao chão.

Contrarregra, entendedor da matéria, (vai saber) fez pose de compreensivo:

– Vai ver que… – ele disse-me algo absurdo.

Vagabunda ficou em silêncio, quase que em posição de solidariedade.

Diferentemente de sua amada, Contrarregra passou a falar mais do que o homem da cobra.

– Já sei! – ele sentiu uma luzinha acessa nos olhos.

Nosso Sancho do século 21 saiu-se com um achado. Lembrou-se, na verdade, de seu potinho mágico.

Os desatentos ou os desavisados de plantão devem saber desta nota: Contrarregra é praticamente um morador da Universidade de b. Vive o nosso amigo naquele espaço sacrossanto de cabeças pensantes de Brasília, dorme por lá por sinal, estica-se em qualquer canto daquela bagaça, gasta boa parte de seu auxílio estudantil com o conteúdo de seu cantil inseparável.

Até então, eu fingia não saber do conteúdo daquele cantil.

Até então…

O amigo então me passa o cantil.

Traguei fundo aquele líquido de valor fora de mercado.

Fiz caretas diversas após o primeiro goró.

A água benzida desceu rasgando a minha garganta.

Era o que eu tanto precisava…

… naquele instante de auto desligamento.

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Um mal súbito (parte 1)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

– Ei!

Súbito, percebo alguém me chamando.

Passava por um pátio na Universidade de b., num dos dois chamados mezaninos.

Aquele…

– Ei!

Voltava da biblioteca. Era tarde até. Escurecia. Última quinta-feira. Cabeça cansada. Sabe como é?

Havia passado a tarde toda pensando numa inalcançável ideia original para um livro futuro.

Quanta falta do que fazer a minha!

– Ei!

Outra vez…

Continuei andando.

Se me recordo bem, continuei andando feito um ator perturbado e sem salário: com a cabeça baixa, os olhos semifechados e sem levar o rosto de lado.

– Ei!

Aquele chamado?

Fiz que o ruído não era mesmo comigo.

Segurei-me no ato antissocial até a voz estourar num canto de uma parede.

– Porra, jornalista!

Tasquei lentamente o nariz na direção daquele chamado.

Contrarregra, o nosso Sancho do século 21?

Contrarregra!

Nosso amigo surge mais uma vez como um idoso de expressiva autoestima, cômico e desengonçado.

De fato, vi um sorriso a estampar o rosto daquela figura sem noção da vida, vi um semblante de ser despreocupado com o mundo, vi uma aparência social de um ser mal alimentado.

Quis crer, naquele preciso instante de realidade, que não era mesmo meu amigo de cotidiano quem estava ali, coçando o cocuruto de sua namorada, num love danado de final de tarde.

Vagabunda com a nuca nas coxas de seu namorado?

Quis crer de novo a respeito daquela imagem de assombração, que Vagabunda não era mesmo a autointitulada Vagabunda,  aquela que não tem pudor das moralidades de plantão, mas logo tive uma reprovação de pensamento, uma resposta de franca telepatia:

– E a e jornalista sem solução, por onde tem andado?

Incrédulo com o encontro inesperado e com cara de muxoxo, eu fiquei em silêncio de velório.

– Pô, minha Vaga? Olha só o nosso amigo jornalista sem solução. Deu pra ficar mudo agora!?

O casal de amigos ali, juntinhos da Silva, diante de minha vista cansada, respectivamente:

– Vagabunda, a feminista desbocada além de seu tempo.

– Contrarregra, o estudante crítico de todas as regras.

Porra, onde estou, quem sou eu? Quando voltei a si, Contrarregra me amparava com a ajuda de sua amada.

Que choque de realidade danado…

Havia desmaiado subitamente e sem motivo aparente.

Uma fraqueza física de momento, uma dor inesperada de pesar o cérebro e os bagos esquecidos.

Um motivo pra ser notícia de corredor? Um monte de gente se juntaria aos pés de meu desabamento.

Sem saber da noção do tempo, me veriam logo cercado por um monte de mãos munidas de capas de fichários coloridos a abanar um oxigênio providencial em minhas ventas.

– Rapaz, o que tá havendo? – ouvi algo assim da boca de Contrarregra.

Sem muita condição pra responder, estalei os olhos de espantalho para o amigo e demais.

Ao lado, se me lembro bem de um reflexo, Vaga dava existência ou extensão a uma dezena de curiosos que, naquele ato de desgraça pessoal, pareciam me gorar com o sangue quente ainda preso aos pulsos.

(continua)

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De volta da quase casa de recuperação pra irrecuperáveis (parte 2)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Embasbacado, tonto e loucamente hiperincrédulo, passei a conceber uma imagem inacreditável: testemunhei alunos do curso de Educação Física praticando a arte das canoas num ambiente pouco festejado pelos politicamente corretos.

Notei que a até então impensável quantidade de água naquele espaço estreito permitia aos visitantes brincar com um efeito de eco inacreditável-vel-vel-vel.

Três a quatro metros de inundação, numa extensão de um pouco mais de um quilômetro.

A enchente inundaria o vão de falsa linha de metrô da Universidade de b.

Só as laterais ficaram a seco.

A repercussão do caso, como sempre, foi abreviada pela oficialidade de plantão.

A manchete do site da universidade amenizou o acontecimento, dando-lhe pouco destaque.

O assunto não pôde virar meme nas Redes Sociais? Só o Diarios de Mochila registraria o fenômeno.

Somem-se a esta observação sem importância as súbitas férias dos (ops!) universitários de b…

Durante alguns minutos, fiquei ali, parado, após descer uma das escadas para o purgatório local.

Juro que eu não podia acreditar. Acabara de passar pelo mezanino norte, um dos dois principais pátios do Minhocão, antes de descer do ônibus. Este, um protótipo das famosas latas velhas de Brasília.

Diga-se, a imagem que vemos de transporte público de Brasília é um reconhecido cu sujo.

De dentro do ônibus, me lembro, pude ver a imagem das Esplanadas dos Ministérios.

Por ser cotidiano, um tour com ilustrativo.

De volta à Capital Federal, vindo de um intervalo de uma quase casa de recuperação pra irrecuperáveis no sudeste brasileiro, nossos olhos de mosca morta testemunham um cenário fantasiado diariamente por aqueles que reproduzem – como presentes ou futuros fantoches de patrões abestalhados – as versões noticiosas sem conexão com a nossa realidade.

Aqui reforço um testemunho: em Brasília, de perto, quase tudo é pequeno.

Não me entendam mal, eu não me refiro às vaidades pessoais.

De resto, é experimentar e entrar no Congresso Nacional…

O espaço físico do Congresso Nacional é minúsculo!

É experimentar uma visita, parça de plantão.

É notar ainda o mar de carros pelas vias engarrafadas…

A rodoviária do Plano Piloto…

Já relatei aos desavisados? Brasília é o Plano Piloto.

O Plano Piloto é um ovo. Um ovo gorado, quero dizer.

A posse econômica e definitiva de uma kitnete no Plano Piloto pode então custar um milhão de reais.

Não é brincadeira, não! Assim como esta história de Subsolo alagado.

No Subsolo, o conforto suposto de uma fuga pessoal.

No Subsolo, eu já podia rever um feliz agrupamento de esquisitos.

Ali, um esquisito chama outro esquisito de parceiro e vai logo oferecendo um beck ou algo barato pra beber.

Ali, a esquisitice é coisa normal, e as pessoas não precisam esconder dos outros seus defeitos, suas manias, suas incompreensões.

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De volta da quase casa de recuperação pra irrecuperáveis (parte 1)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Lembram-se do Subsolo?

O Subsolo da Universidade de b…

Caramba! Como não se lembram?

O subsolo do Minhocão, o maior bloco de salas de aula da Universidade de b…

O Subsolo…

Ah, me perdoem, só agora reparo que fiquei ausente nos últimos dias.

Nos últimos dias… O que o dito jornalista sem solução andou fazendo nos últimos dias?

Então, garanto que não fui preso por tráfico de falta de influência.

Não, ( juro!) também não fui detido por criticar sistematicamente as cartilhas de movimentos estudantis e digitais.

Detido? Nem por falta de soluções e palavras de ordem cotidianas.

Nos últimos dias…

Nos últimos dias, vou confessar, admitamos, simmm, nos últimos dias mandei às favas a periodicidade de nossos diários, fui rever um filme francês na divisa criada entre o real e o imaginário; respectivamente, estados de São Paulo e do Paraná.

Ah, sim, no filme godardiano, datado na década de 1950/60, os personagens quase não se fala(va)m.

O que importa dizer além do sexo cine grafado: fui curar uma ressaca numa quase casa de recuperação pra irrecuperáveis. E, claro, voltei com o sangue limpo, asseguro-lhes!

Com o sangue limpo de indígena de 1500, a cabeça cheia de ideias e a língua ainda preta.

De novo no Subsolo, o nosso chamado monstro da obsessão.

Quando voltei ao nosso sempre reiterado Subsolo…

Os pensamentos logo se dissiparam quando notei o Subsolo completamente cheio de água.

Aquele famoso vão que dá existência a uma falsa linha de metrô de cidade grande e esgoto a céu aberto.

Muita gente do piso superior sequer então desconfiava daquela imagem de Veneza brasileira escondida debaixo dos próprios pés. Tratemos de um espaço social da universidade de b., em Brasília.

No piso inferior, a vida dava sentido a outras caras. Botes e remos que outrora enfeitavam as águas do Lago Paranoá, a poucos metros dali, agora inacreditavelmente trafegavam em águas sujas de enchente no ambiente mais libertário da Universidade de b.

Como já descrevi em outras passagens, o nosso Subsolo é imune a pressões institucionais.

Asseguro-lhes mais uma vez: acontece de quase tudo naquele espaço sacrossanto e pretensamente iconoclasta.

Episódios com personagens tresloucados são logo tomados como subliteratura fantástica.

De fato, o Subsolo não suscita consequências jurídicas.

Ninguém, mas ninguém mesmo é punido ou julgado pela mídia no Subsolo.

No nosso Subsolo, as imoralidades caminham juntas com os pensamentos de vanguardas.

E a chuva que raramente caia em Brasília, hem?

Os últimos três meses – pela falta de chuva e umidade – foram de totais entupimentos de narizes.

(Num dado capítulo anterior, o nosso retratado de Kurt Cobain bem alimentado experimentou este drama, e, em nome de seus semelhantes e asseclas, sacou de um dos bolsos um dedo indicador e limpou o próprio salão em público).

Na nossa ausência de vida, um pé d’água atingiu o piso subterrâneo dos irrecuperáveis de b.

(continua)

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Sancho de Brasília (parte 2)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Sancho de Brasília e eu trocávamos uma ideia.

– Então você é jornalista – expressou ele.

Caminhávamos num dos pátios do Minhocão, o maior bloco de salas de aula do Campus principal da Universidade de b. (Essa nota, os leitores atentos também já conhecem.)

Neste instante, sou de novo interrompido pelo voo de memória:

– Então você é um jornalista.

A informação parecia lhe agradar, mas um capricho estilístico me fez corrigi-lo.

Retifiquei a fala do então recém-conhecido:

– Jornalista, não. Jornalista sem solução!

A correção pouco fez efeito:

– Ah, você é um cabra sem “solução”. Legal, legal.

Súbito, o vulgo Contrarregra cessa os passos e retira de um dos bolsos de uma calça social preta um diminuto pedaço de pão seco. Jogou o alimento adiante, na direção de um canto vazio e esquecido pela multidão.

Quando pensei em lhe dirigir uma fala de estranhamento, um, dois, três pombos aterrissaram do espaço sideral.

– Eles aparecem todos os dias – de bate pronto explicou-me o amigo.

Ficamos ali, ambos em pé, apreciando a disputa de bicos por um naco de pão sem valor comercial.

Perguntei-lhe pelo nome:

– E o seu nome, qual é?

Até aquele momento, eu não sabia que ele era Contrarregra, de fato.

Ele fez-se de surdo.

Nosso interlocutor observava os pombos com cara e gestos imaginados de Quincas Borba, o personagem filósofo de Machado de Assis.

Contrarregra estava aparentemente sedado de sono.

Percebi que ele estava ainda a acordar. Insisti:

– Qual o seu nome mesmo?

Numa amostra de palhaço, e com a língua estranhamente exposta e presa aos dentes, ele tascou:

– Contrarregra!

Realcei a minha cara de espanto e ceticismo:

– Contrarregra?! Tá de zoeira, cara!

– Tou nada! – ele me devolveu a zoação mal disfarçada.

Estávamos ainda na mira dos pombos siderais, que disputavam como urubus o café da manhã oferecido.

Já na condição cristalina de ex-projeto de galho seco esquecido numa sombra de pasto sem vacas e bois, Contrarregra resolveu ser ainda mais taxativo:

– Sou contra as regras, carai!

Pensei em dizer algo.

Apenas pensei na ideia.

O sujeito desembestou a falar:

– Sou contra… – disse-me, levando seu cantilzinho à boca.

Agora enigmático e explosivo:

– Sou contra essa porra toda!

Outro gargalo:

– Sou contra contra…

Num gesto de aparente solidariedade, Contrarregra me ofereceu um gole de sua bebida sem rótulo.

Recusei a oferta, explicando que eu havia acabado de tomar café no restaurante.

Repassei a palavra pro Sancho, que alternou um respiro forçado com outra bebericada.

Emendou a própria fala em voz alta de lunático pigarrento:

– Sou contra as regras, sou contra, tá ligado, sou contrrraaaaaaaaaa!

FIM

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Sancho de Brasília (parte 1)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Após trinta dias no piso santo da Capital Federal, fiz uma amizade camarada.

O parceiro chamava-se Contrarregra.

Até falei de seu nome em outros capítulos?

Se não me falha a memória, a figura fazia um curso vago na Universidade de b.

– Curso vago?! – os não atentos e as não atentas devem se perguntar.

Exatamente, um curso vago!

Ah, Contrarregra é estudante de Comunicação Social. E curso vago é um sinônimo de um curso dito superior sem muitas disciplinas teóricas e professores nada interessados em corrigir trabalhos copiados de terceiros; a ideia de vaguidão ainda dá contorno simbólico a um curso ligeiramente fácil de levar, um curso que se poderia fazer de casa, via internet e em paralelo a múltiplas conversas fiadas com pessoas desconhecidas nas Redes Sociais.

Contrarregra, vulgo Sancho Pança do Século 21.

Não que ele seja gordo, comilão e realista; não, nada disso.

Aliás, pelo contrário! Nosso amigo é magro, magérrimo – como expressam as grã-finas de um cronista antigo.

O Sancho de Brasília é apenas uma referência de alguém que gosta de cavalgar ou andar cambaleante pelos corredores da Universidade de b., munido de um cantil de água ardente escondido no bolso de um casaco sobretudo surrado e cheio de pelinhos de cobertor de lã.

Sancho de Brasília, uma figura!

Uma figura…

Lembro-me bem de quando o conheci. Por inusitada, a cena de memória ainda me provoca risos mudos.

Esbarrei com o parceiro numa manhã. Dobrava o final de um corredor de sala de aula.

Quase caí por cima dos próprios ombros, quando…

… quando tropecei numas canelas finas estiradas no chão.

O dono das canelas finas?

Quem?

Ops! Queeeem?

Contrarregra! O dono das canelas finas dormia num chão duro, estirado como um galho seco esquecido numa sombra de pasto sem vacas e bois.

– Opa! Foi mal, cara – disse-lhe numa fala de súbita consideração.

Estava ele com o rosto de quem literalmente dormiu fora de casa.

Dormira na Universidade de b., sem noção da gota.

A primeira reação do projeto de galho seco esquecido numa sombra de pasto sem vacas e bois foi a de suscitar um riso com mescla de bocejo.

Passava das 9 da manhã de uma quarta-feira. Muitos universitários de b. já circulavam no local que lhe sustentam o adjetivo em projeção minúscula.

Após uma espreguiçada, Contrarregra ousou pedir a minha ajuda para se levantar.

Ainda do chão ele alçaria um dos braços.

Pediu-me um providencial apoio levantando as sobrancelhas como a que me dizer numa mensagem cifrada e de irônica empatia:

– Dê-me uma força aí, caralho!

(continua)

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De um sol de espantar mosquitos e pessoas brancas (parte 2)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

O julgamento de um impassível?

Pela falta de ação, o namorado deve ter cometido algo grave em relação à moça.

Algo mais grave do que a mentira mal contada?

Na falta de precisão, imaginei um zilhão de coisas.

Imaginei o prenúncio de um acabamento passional.

A dez metros de um banco encardido, em outro banco encardido, e debaixo de uma árvore com sombra falhada, eu projetava o fim de um relacionamento numa seção de jornal barato.

A namorada então senta, respira, senta e cruza as pernas, sufoca a visibilidade de sua emoção.

Involuntariamente ou não, notei a cena por um hábito de descrença diária.

O rapaz mudou de lado, escondeu-se do sol.

Sentou-se, por que filho de Deus que se preze senta, abaixa a cabeça e conta os rosários.

Ela, de lado; ela ainda resmungando.

Ela com as duas mãos a cobrir o rosto de choro incontrolável e pintado de decepção. (Nesta passagem eu exagero, me perdoem.)

Uma prova de que o rapaz fosse mesmo um notável cafajeste, um Jece Valadão do século 21?

Como se a moça lamentasse a suposta pisada de bola do rapaz, ali, diante de outros passantes.

Passantes que, sem cessar os passos, respeitavam os personagens ou fingiam não vê-los.

Passantes que iam e viam, ora na direção de uma biblioteca, ora na direção de um mezanino.

O mezanino norte do Minhocão, o maior bloco de salas de aula da Universidade de b.

A nossa falta de áudio continuava…

Um palco sem degraus. A curiosidade sobre um possível desfecho inimaginável aumentava na proporção inversa em que diminuía meu interesse de leitura por uma página qualquer de um livro teórico, leitura lenta ou arrastada por um habitual sono pós-refeição no R.U., vulgo Restaurante Universitário.

Ali, na mira distante de nossos personagens, num contorno de cotidiano.

Uma obsessão de realidade. Quem sabe, os dois, de propósito, provocavam a atenção gratuita das pessoas?

Uma troca de gestos à la cinema mudo. Isso, uma cena tipo Charles Chaplin.

Minutos depois, após secar o rosto num lavatório próximo, dirigi-me a caminho da biblioteca.

Agora na posição simbólica de um reles passante, noto de novo o casal de namorados.

Os ditos personagens de cinema mudo, neste instante, estão felizes.

Felizes?! Isso. A moça no colo do rapaz.

O rapaz – vai saber? –, contorcendo-se por uma irresistível sensibilidade de pobre mortal.

Ambos, agora visivelmente renascidos com o giro da vida.

Aos risos.

FIM

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De um sol de espantar mosquitos e pessoas brancas (parte 1)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Todas as culpas e dores, todos os caprichos e fatalidades da humanidade ficaram de lado naquele momento, naquele momento, a moça gesticulava com os braços, em pé, possessa, descontrolada, diante de um rapaz, ela vociferava, vociferava repetidamente, vociferava como a expulsar de si uma incompreensão de então namorada despeitada com o namorado; de longe, era notável, de longe via-se nitidamente que a moça levava o dedo em riste pra ponta do nariz do outro, que impassível se postava com as mãos na cintura, tão impassível quanto alguém que, questionado por um suposto desvio de conduta, não tem argumentos a apresentar.

Imaginemos um erro.

Imaginemos uma falha.

Imaginemos uma bola fora.

Imaginemos uma escorregada numa escada.

Imaginemos um caso único de depressão súbita ocasionada por uma pane nervosa vindo diretamente de Marte.

Após um erro, após um vacilo, após uma reconhecida cravada nas costas da amada.

Amada que, até a semana passada, recebia flores vermelhas.

Amada que, até a semana passada, ouvia palavras doces.

Amada que, até a semana passada, sentia toques zelosos no entorno dos lábios.

Aquela imagem, à distância, juro, à distância dava para imaginar coisas mil.

À distância, num primeiro momento, quando os vi…

Quando os vi, pensei que fosse uma representação teatral à luz do dia.

Mas não, não?

Os dedos insistentes em riste daquela garota continuavam.

O gesto não suscitava intervalos de um ensaio.

Sim. Supus que ele fosse o amado daquela amada. Minutos de gestos repetidos me fizeram ter a certeza de um lunático diante de uma descoberta ocasional que só ele pode notar, sentir ou reproduzir, a certeza de um instintivo direito de posse de uma pessoa sobre outra, admitido em público.

Era uma altercação sem o peso simbólico de um áudio promocional.

Era uma discussão descontrolada.

Uma sequência de chiliques reproduzidos em excesso.

Um rompante de vida social numa das praças de convivência social da Universidade de b.

Em pleno sol de meio dia, aquele sol de cinco metros de altura, a partir de nossas cabeças.

Naquela lua, num sol de espantar mosquitos e pessoas brancas.

– Porque você é um cretino – tentei colocar um pouco de volume naquela máscara feminina.

Enquanto isso, o rapaz fazia cara de falsa surpresa.

Enquanto eu coçava o ouvido, o rapaz supostamente admitia falta de memória.

Ou melhor, enquanto o rapaz ouvia uns palavrões, sua amada se segurava para não saltar em sua garganta.

Ela, no seu limite aparente!

Ela, prestes a saltar nos olhos do outro com unhas e alfinetes.

O rapaz, a esta altura, um suposto canalha vendido.

O rapaz deve ter pensado consigo, deve ter sido mesmo uma mancada minha!

(continua)

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