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Relatos de dias cinzentos – parte 4

atualizado 3 outubro 2016 Deixar comentário
Jaguarão; do ponto mais alto do município

por Jose Mochila

Outro dia. A vida ressurgiria. Tinha que ser! Numa província do sul do país (poderia ter sido em qualquer contexto, mas a ideia surgiu aqui!), ambiente glorificado pelos seus, pampa tupiniquim, um retrato de interior ainda em processo de desbravamento. Uma terra larga, diria um político do outro lado da fronteira? Analisemos. A relação de amor entre os nativos e sua terra tem de ser exagerada, frágil, senão o sentimento de mundo exalado nas redondezas não faria sentido à tradição deste lado. Um velho costume de vida? É a palavra-chave, a sensação de exaltação cultural não possui fronteiras!
Atraso de ideias? Não, eu diria atraso de comportamento. Algo pior! Para alguns, o acesso à internet eliminou certas desculpas de falta de imaginação; para outros, o sentimento imediato é de conservadorismo. Con-ser-va-do-ris-mo? Isso. Sem dó nem piedade. A frase pode ser repetida sem nenhum desconforto, como um chavão de outra parte do continente, de onde por acaso vem o responsável desta mensagem tosca de toscanidade. O sentimento de bairro é uma invenção de nosso momento de eternidade.
Trata-se de um caso concreto? Como não?! É um cenário herdado e reproduzido todos os dias! Num passo dirigido pela Avenida 27 de Janeiro, desligo-me das implicações alheias. A moral da história (que aqui não deveria existir) se acha no centro de Jaguarão, onde um telefone sem fio projeta uma mania ancestral. Numa esquina real e metafórica, num ponto de encontro e de troca de experiências, me vejo logo criticado por manifestantes feministas! – Pssssssssssssssiu.
Prefiro fechar a boca e abrir os olhos. Daqui por diante, miro outra polêmica social. Duas pessoas conversam à meia distância; mesmo à meia distância é possível prevê-las. A cena é representativa. Pude ver de perto um riso mudo de duas personalidades locais em frente a um Café famoso; passei ao lado das figuras que falavam, falavam… Juro, eu bateria a cabeça de propósito no poste de luz seguinte se ambos não falavam de algo “sigiloso”, assunto de vizinhos, conversa de compadres. Foi um doce flagrante; ou melhor, deparei-me com o que podemos chamar de hábitos corriqueiros. A dupla falava de outras pessoas, não sejamos tímidos no reconhecimento. Um retrato de época que surte efeito: a base de uma província é que a pessoas são normalmente mais interessantes do que ideias; pessoas são de fato mais interessantes do que ideias – eis o princípio de nossas relatadas provincianices.

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Relatos de dias cinzentos – parte 3

atualizado 3 outubro 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

Um passo certeiro para fora de casa. Em outra região do país, seria o bastante para encarar numa boa a sensação térmica de zero grau. Aqui no sul do sul do Brasil, a então estabilidade do frio pode ser sentida dentro de qualquer casulo, sem distinção de natureza simbólica. Aqui o frio é… cortante, permanentemente cortante; por isso, antes de vir ao extremo-sul, figura de plantão fora de órbita definida, consulte a própria pele! A condição atmosférica é terrível no final de julho neste localizado pampa, sobretudo pra quem não está acostumado.
Numa conhecida Cidade Histórica, a umidade e o vento gelado castigam a pele. É um castigo. Literalmente. É de estranhar não ver transeuntes de calçadas públicas com os lábios ressecados ou com princípio de rachadura no rosto. A madrugada do último domingo (modo de dizer, poderíamos citar qualquer dia desta época do ano) o registro da temperatura ultrapassou zero grau negativo; nesta condição, os pés e as mãos congelam fáceis. Uma, duas, três, quatro, cinco pares de meia ralas não correspondem a uma essencial autodefesa do corpo para manter o rodapé do organismo confortado. Luvinha de mão é só pra enganar a plateia e fazer a festa dos vendedores ambulantes nas imediações de uma ponte internacional. A calça jeans? Não é o suficiente. Não, não é.
O frio rigoroso penetra qualquer orifício de costura neste local de mundo, como se o emaranhado de fios não fizessem sentido sobre os corpos de vivos mortais. Um drama pessoal? Não se acha calça de veludo nesta cidade! Uma explicação: as vendedoras das principais lojas de confecções do município argumentam que o inverno ainda nem começou.
Ora, vejam só?! O inverno ainda nem começou, vou falar nada! Uma encomenda está a caminho, me iludem as vendedoras locais. E será que o produto chega amanhã? Amanhã… Nem faço mais questão de pensar no desdobramento do tempo. A situação vai piorar. Vai, Vai. – Ei, a situação vai piorar? Aposto que posso até ser vítima de um tipo menor de hipotermia. O jeito vai ser entregar os pontos e desistir dos contrapontos. Valeu! Valeu enquanto durou! – pode ser o meu último gesto nesta biboquinha. Consequência deste tempo relatado, ou melhor, de um vilão chamado friiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiio.

(continua)

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Relatos de dias cinzentos – parte 2

atualizado 3 outubro 2016 Deixar comentário
Jaguarão vista da Ponte Internacional Barão de Mauá, que a liga à ciudad de Río Branco-URU

por Jose Mochila

Não me peçam pra sair deste Café maravilhoso! (Aqui na cidade há um Café maravilhoso). Não vou dizer o nome comercial, nem pagando um café eu digo! Só posso admitir que o Café fica no centro. Lá… Quase me esqueço, falo agora do próprio comércio. Sob a proteção de fantasmas inquietos, estou na companhia de um jornal. Pra quem não conhece: no estado brasileiro do Rio Grande do Sul há um diário. Existem dois, vá lá, porque mais de dois seria uma indecência, né não?! O jornal hegemônico é o mais sem vergonha de todos, provinciano – e poderia ser diferente? O fato é que não há jornais no Brasil que não sejam provincianos e… sem vergonhas! Porque para ser provinciano é necessário não ter um mínimo de vergonha na cara para admitir e defender teses bairristas como a que projeta a imagem de um povo feito um retrato único e sacrossanto em um ponto privilegiado de uma parede global; o privilégio não é só dos sulinos, claro. Em outro estado brasileiro, de onde brota o poder econômico do país, há pelo menos cinco diários sem vergonhas; um deles possui a inscrição editorial de uma família – ô jornalzinho! Só há declaração de políticos naquela marmota. Por um paradoxo, há quem tenha saudades daquela marmota. De onde falo mesmo? Ah, de um Café exaltado. Aqui, as atendentes são sempre amáveis; tem uma delas que até possui um brilho exótico no olhar… Peço o de sempre; aliás, como peço o de sempre, nem preciso pedir mais. As atendentes já sabem. O café com leite surge por telepatia assim que me acotovelo num balcão. Leio enquanto tomo café, tomo café enquanto leio; com o final da leitura, finjo que leio novamente. O café rende pacas, até demora a esfriar. A leitura rápida me deixa à vontade para observar o movimento social. Como entra gente chique neste Café! Cada uma! Cada o quê? Ih, sotaque de estrangeiro no sul vira alvo fácil pro bairrista mais próximo. Se eles me descobrem. E se os locais me localizam? Se estes me veem, o alvo fácil não será mais o estrangeiro leitor de marmotas impressas, sô! Num debate imaginário, os locais podem ser abduzidos por um sadismo de leitor de jornais de bairro. Se não existe gênero mais típico…? As atendentes vão e voltam; elas param pouco pra um dedo de prosa. Como trabalham! Devem ganhar por cada lasca de pele que lhe tomam diariamente? Claro, se as gurias tivessem um tempo de conversa poderíamos ter tirado essa dúvida. Uma dúvida que por hora nos cega a retina…

(continua)

 

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Relatos de dias cinzentos – parte 1

atualizado 3 outubro 2016 Deixar comentário
Um retrato do Teatro Esperança, então em reforma no centro de Jaguarão

por Jose Mochila

Se me permitem, vou falar o que penso exatamente. Não, eu vou dizer o que penso exatamente. Classifico o que penso exatamente? Pra que afirmar se não há muita razão pra buscar a audiência? Sabe como é? Sabe da quase ladainha de que os atos contidos estrangulam o nosso cotidiano? Não parece, a ausência de reflexões toma um tempo absurdo de nossas cabeças; me parece óbvio (!), são os pensamentos que nos fazem gente. Procuro conter tal ideia, como se eu ainda intentasse convencer alguém de que do outro lado do vale mais próximo há uma enorme geladeira aberta, de onde vem todo este frio que então castiga as nossas peles. É uma pergunta camuflada esta história de que “deixaram a geladeira aberta”. De onde vem todo este frio, hem? Do cu da Argentina? Não me diga que é o bafo de inverno dos pinguins no polo sul que começa a despontar…? Esse frio que consome o resto de dor pessoal e não explicitada; qualquer sensibilidade agora é resquício de um tempo por pouco esquecido, esquecimento é a falta de pontuação. Afinal, não sou do sul de um continente…? E se eu já pensava assim de onde eu vim…? Olho pra onde, pois…? A direção começa cedo, passo por uma avenida onde há um prédio em reforma. Sempre me pergunto sobre esta reforma. Pessoalmente, eu posso me perguntar sobre tal reforma? Ninguém vai querer esmagar a minha cabeça de bagre por causa de uma sinceridadezinha? Porra, esta reforma não acaba mais?! É o máximo que me interessa perguntar. De resto, podemos ficar com a Estilística. De resto, podemos ficar com a Estilística…? Ah, o resto é acessório, porque o mundo não vai parar (e se parasse, hem?) por causa de tijolos amontoados sobre parte da passagem de pedestres. É… O mundo é muito grande para parar assim tão fácil, de fato, a vida não cabe em palavras, nem em nossas condições físicas. Eis a principal justificativa que me faz sempre parcial, rindo irado com as mãos sobre o rosto na tentativa de me salvar da poeira do tráfego de veículos à margem daquele prédio em reformas.

(continua)

 

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O surgimento de um vilão

atualizado 28 setembro 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

Um minuto de prosa.

Como se eu não fosse acostumado.

Como se eu não fosse natural do Cone Sul.

Como se eu fosse um periodista de origem caribenha, de passagem rápida pela fronteira Brasil-Uruguai, emparedado por um choque de culturas sem precedentes.

Meus primeiros dias de visitante-residente na cidade de Jaguarão estão sendo marcados pela chegada de um personagem que considero difícil.

Acostumado a fazer caminhadas no início da manhã, onde quer que eu esteja morando ou por onde eu esteja com minha publicitária mochila de andarilho, importa considerar: fui traumaticamente surpreendido ao colocar os pés numa calçada esburacada, depois de descer as escadas que me levariam à vida social, isto é, num instante em que uma boca sulina começaria a reproduz um tchêêêê…

Dizia eu: descia as escadas de um pequeno prédio, em um movimento em espiral, apoiado num corrimão de maneira a atingir o primeiro piso e, sem muita prevenção, atingir uma saída para o que passei a chamar de retrato mágico de realidade, cenário de onde tentaria me fazer incluído feito uma boa vizinhança. Ficara, pois, a maior parte do tempo fechado num escritório particular, me dedicando à escritura de um texto de nome e gênero ainda não postos à uma prova cabal.

Quero dizer, pouco antes de abrir a porta para a vida social, pouco antes de girar a maçaneta, antes mesmo de pensar que eu não pudesse esbarrar mais com uma vilania evocada, antes mesmo de pensar que eu estava livre de qualquer desconforto de mundo, e que eu não percebesse certo deslocamento de animal numa imagem escura de serração, já que eu deixei de acompanhar o calendário num mês de março, por descuido ou por concentração profissional, pois bem, assim que eu cruzei a porta e me deparei com aquela figura que me tanto faz corar as bochechas de tempos em tempos, santa paciência para suportar este momento dramático, em específico, falo de um iminente período do ano: Inverno, um apresentado anti-herói deste fragmento diario.

 

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A descoberta de uma velhinha

atualizado 27 setembro 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

Chego a Jaguarão e descubro que a cidade então completara 158 anos de existência. A primeira informação que colhi do município? Obtive-a de uma entrevista particular perto de um espaço de circulação pública chamado Praça do Regente. Pela força do destino, vá lá, veio-me uma velhinha de 100 anos de idade. A velhinha – eu pude presumir no caminho de ida e de volta de um centro urbano – costuma ficar presa a uma cadeira de balanço, num exercício diário de provocar um bom dia, uma boa tarde e, após um necessário intervalo para um toalete, quem sabe uma boa noite aos passantes de uma calçada de chão irregular.

A velhinha morava numa casa grande de arquitetura açoriana; bem me recordo, existia uma escola numa esquina próxima ao tal casarão, onde um policial militar com feição de aposentado marcava ponto sem muito abrir a boca; por perto, existia um clube aparentemente interditado, bem do lado oposto da escola, que agora me foge o nome. Os caros passantes locais de época poderiam confirmar o que eu reproduzo neste instante de falta do que fazer na vida; se os leitores pudessem voltar no tempo e pisar comigo naquela calçada e dar um bom dia, uma boa tarde ou uma boa noite para aquela velhinha… Ela é tão carente de atenção pública!

(Quero crer que a velhinha seja filha de um morador do tempo da fundação do município; ela me assegurou a idade de Jaguarão com o fervor dos bairristas.) Eu dizia? Eu vinha caminhando pela Avenida 27 de Janeiro, quando esbarrei com a figura da velhinha centenária. Indicaram-me o centro para uma visitação, pois fui até ele caminhando, caminhando, caminhando. Após cumprimentar a velhinha e lhe fazer uma pergunta fundamental, segui adiante.

De posse da informação de que Jaguarão ostenta a imagem de um bairro que não nasceu ontem, me dirigi a um destino com a seguinte premissa de periodista: sempre que um farejador de intrigas chega numa povoação, o centro desta deve ser mobilizado, testemunhado, tocado de alguma forma. É do centro que se pode fazer um retrato fidedigno de uma urbe. E mais: observando a arquitetura que veste a elite de um povo é que se pode perceber melhor a feição de uma dada fração da humanidade. De certo, me manifesto pelo pendor de uma didática.

Chego exatamente ao epicentro de Jaguarão. Meu Deus, o que vejo? Piso numa Praça Central com bancos vazios e flores murchas; esbarro com uma Igreja Matriz fechada com um grande cadeado de porta de cadeia da Era medieval de que nunca tivemos notícias; ao mesmo tempo em que vejo uma central de pecadores potenciais, avisto a poucos metros um par de bêbados babando grosso num meio-fio. Em outras palavras, deparo-me com um dado comum de todos os ajuntamentos sociais; passo a ver Jaguarão com o seu devido lugarzinho no mapa.

 

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