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Fim

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Poucos podem acreditar, por isso não abro mão deste simulacro. Mas trago à tona que um guarda-chuva me transportou de uma dimensão aparentemente incontornável, definitivamente ao encontro da figura deste redator. Houve, sim, uma breve dúvida de estilo; já na volta da explosão do pensamento, eu jamais imaginaria rever meu amigo perfeito, vulgo senhor piegas, andando de mãos dadas com a sua companheira ideal, a garota notável, durante uma tarde de sol, no pátio da Universidade E***, onde nos encontramos. Meu amigo não se conteve: primeiro zoou com a minha cara de papel impresso; depois, fez apologia do próprio romantismo. Rimos com camaradagem, fiquei meio tonto de inveja ante a felicidade incontida do casal de amigos, pensei, pensei naquele momento de vaidade irrestrita, onde poderia estar a minha destacada razão de ser? Do meu lado não estava alma viva! Quando indaguei por mim, olhei de lado, havia sentido um movimento peculiar, voltei os olhos à frente, para minha surpresa ou para o regozijo de meus fantasmas, o amigo perfeito não estava mais sorridente, nem calado, muito menos visível. Simulei um esquecimento repentino, olhei mais de uma vez ao próprio redor, me certifiquei gesticulando sozinho com os braços, não estava sendo notado por ninguém. Soltei a respiração, inspirei e aspirei um pouco de ar, desisti de um dado pudor público, recuperei os sentidos, minutos depois, já me sentia uma pessoa normal (como é confortante ser normal!), certamente com o rosto munido de uma expressão de alívio, ainda bem, ufa, foi um delírio.

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Jogo de imagens

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

De verdade, não deixaria de ver da maneira que vi pela fresta da janela da sala de casa uma imagem incomum que chamava a minha atenção, a chuva caia fina quase invisível no escuro da noite enquanto de minuto em minuto – por um tempo indeterminado – clarões de relâmpago iluminavam o chão da rua esburacada pela empresa de saneamento básico do setor público local. O que a vista cansada pelo sono conseguia ver era apenas trechos não fragmentados de uma parte diminuta de um recorte da amplitude de um horizonte que eu jamais vou lembrar e ver completamente o que agora pode parecer um absurdo visual. Pelo menos se eu pudesse decodificar tal jogo de imagens…

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Das releituras

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Sem saber, já a partir das primeiras releituras de uma paisagem cotidiana e suas impressões horizontais, diante de um mundo cada vez mais desconhecido por mim mesmo posso afirmar depois de vinte anos de sociabilidade, quer dizer, depois de um tempo a vida humana ganharia do meu ponto de vista proporções inimagináveis. Não haveria mais conserto algum, meus desejos seriam apenas teorias ou pontuações abstratas, meu ato de fazer movimentos repetitivos só teria sentido se fosse reproduzido em série? Com desconforto semelhante, o organismo seria não mais que uma espécie de dispositivo automatizado como um objeto de mercado: uma embalagem estereotipada pelos meios de comunicação? (Curiosamente, posso ser tomado como um notável estereotipizador.)

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O amigo perfeito

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Estafado, afirmei a desistência de um pensamento sistemático. Ia tratar da escassez de novidades, da rotina moralizante e institucionalizada, da insistência ignóbil dos personagens sem papéis presos em nosso dia a dia, dos segredos que deixam de serem segredos às escondidas, (em voz baixa) cá entre nós, até parece que o mundo tem conserto! Certeza mesmo tinha meu companheiro de faculdade, o dito amigo perfeito. Aliás, disse-me o amigo perfeito, categórico, enigmático e intrometido:

– Só a morte, o grande mistério que ronda as prisões de nossas vidas, a sobra do nada é o pouco que nos faz sentido, as crianças sobreviventes praguejam o excesso do que fazer – escreva aí redator –, imortaliza a magia do verbo e trate de me dar o devido crédito, já que muito duvido que não tenha gostado da última oração provocante, sacada de mestre?!

O amigo perfeito então reforçou a nossa sensação de pensamento vivido:

– Foi muito bom, cê sabe, manjo com as palavras, analisa, vai! vai! vai! – acrescentou.

Ah, meu caro amigo perfeito, falando assim até parece que o sucesso do teu fracasso tem magia, até parece que você não existe!?

– Amigo, o gênero humano não se cansa; definitivamente, ele vive a procriar e propagar suas vaidades, rancores, agonias!

Reflexivo, pensei na réplica de meu amigo perfeito; presunçoso, ele não deve ter ido muito longe; na ocasião, deduzi o aspecto mais visível, o mais comum de todos nós: a esquisitice do comportamento.

A propósito, o nobre amigo voltaria com um grand finale:

– O eu lírico do redator que o diga, né não?!

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Da Universidade E***

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

A Universidade E*** estava logo à nossa frente, aquele vespeiro de… (quase que eu deixei escapar uma crítica!). Usei o canto dos olhos, espiei em movimento, o perfil daquele andar feminino, por um instante, questionei-me mais uma vez: é a amiga da faculdade ou é a moça inominável?

Mais uma vez a mesma obsessão! Deixei de ruminar, arrisquei um convite para um café, após um sim, tive a certeza: desta vez era a amiga da faculdade, tava bem próxima, seu perfume me era muito familiar, bem que eu desconfiei da consciência me soprando algo lógico na cavidade dos ouvidos; bajulador de uma substância aromática, não resisti, exclamei em voz alta:

– Esse seu perfume, hem!

Ela fingiu que não me ouviu. Visualizei seu sorriso contraído. Fomos pra cantina. O episódio marcaria o primeiro dia em que me sentiria seguro, convicto, na posição de suposto literato; por acaso, e sem muita energia, atingi uma proeza que se repete a cada 100 ou 150 anos: formulei um suposto segredo dos segredos da produção universal de um importante gênero artístico. Saibam: tempos atrás, fiz uma leitura decisiva, quem sabe, na presença de uma testemunha inconfessável, sabe-se cá, na verdade não recordo direito, mas o que não tenho de memória, julgo ter de imaginação e de desvario (sobretudo desejo de desvario!); não sei precisamente de onde saiu esta ideia de falso jerico: os artistas da literatura são legítimos magos… Não! Não batem bem da cabeça, a san-tí-ssi-ma cachola!

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Autoencantamento

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

A liberdade me levou a um diálogo:

– Você é inteligente e eu gosto de me relacionar com gente inteligente – ela disse.

De meu lado, fiquei pensativo, refleti sobre as relações humanas: são todas condicionais, deduzi, dali pra frente, a sensação foi – pra mim – a pior possível; de um risco traçado de um ponto horizontal à outra extremidade, sublinhei o tema: a moça inominável observou enfática:

– Como há tanta gente burra nesse mundo!

Achei exagero de sua parte, notei autoencantamento, depois de sua fala esbocei um sorriso, acabei dando risada de tanta espontaneidade daquela figura sem cerimônia. Ousei um singelo toque em seus cabelos, o gesto a fez esbanjar outro sorriso, o que era bom demais pra ser verdade, eu não queria deixar de estar ali, trocar o semblante e vê-la sem saber que mundo nos uniu, nem pensar na vida, eu sem querer saber se quem acompanhava a moça era eu mesmo ou o redator, o já dito personagem.

Fiz que não fiz por puro fingimento. A princípio não consegui articular direito as palavras, raciocinei a dois passos de uma esquina: há sempre um interessezinho, talvez um sentidozinho variado em nossas cabeças, pensei, sem completar tal ideia…

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Pulsação

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

O redator volta a pulsar em mim, avistei, notei a moça inominável distante da vida social, ela riu (abusada!), vi seus lábios, a transparência de seu vestido cinza, vi seus membros inferiores, suas coxas, vi seus membros superiores, ombros descobertos, vi o contorno preciso dos seios, a vista cansada, vi a volúpia dos quadris…

Notei-a distante como da outra vez senti seu cheiro de transcendência, o perfume no meio do caminho cada vez mais perto de uma autoria, caminho pela utopia do sublime, desejando o conforto de um contato possível, me aproximo face a face, sangue nas veias, fervendo de calor, fixo nos olhos, olhos castanhos e submissos. Diante de mim, e para minha surpresa, não era mais uma flor, uma rosa sem espinhos, era uma miragem, não era a moça inominável.

No chão, uma fenda se abriu, ao redor de uma base estreita, onde fiquei órfão de maldade, fixado nos próprios pés, temporariamente livre, rente a um abismo metafórico, boquiaberto, do outro lado, vi o abrigo de meu continente fantasia, comprimido numa ilha imaginária, como eu não desejava, senhor de mim, livre demais! Ah! maldita liberdade…

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Taquigrafia

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Arrisca-se este redator:

– Se preciso for, desafio a natureza do grito…

Do outro lado da página, o outro redator acaba de confessar – por extenso – o seu estado inconsequente de redatez. Taquigrafei o seu discurso último: bebi, bebi, enchi a cara numa noite nublada, madrugada de sábado, na companhia de amigas e amigos incomuns; bebi, bebi sem dar satisfação a ninguém, eu bebi com implacável exagero!, fato que deve justificar as últimas frases, orações e ideias.

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Diz-se o comando

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Aqui não falo eu, quem fala ou quem comanda o enredo é o sujeito lírico, o autointitulado redator. Os leitores atentos sabem: a ideia de autor não predomina no século XXI (não me perguntem por que, pois é impossível saber de tudo e faço questão de não ter todas as respostas). A atuação do notável é apenas implícita, nada razoável a presença de vaticínios pessoais, a consciência subdeclarada não pode ser captada como é captada num sonho qualquer de pessoa a ver navios; quer-se uma composição singular e sem registro histórico, sem precedentes de propagação midiática jogo toda a afirmação sem sentido para os especialistas em acaso!

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Lamento

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Um breve lamento: queria ter conhecido o poeta Paulo Leminski em vida, queria ter conhecido do mesmo modo outros lugares, outras pessoas, queria ter força pra fugir dos sentidos indefinidos, da magoa gritante, da ira aguda, do registro ambulante sobre a (im)possibilidade de ser preciso com a palavra e, ao mesmo tempo, agradar provincianos e provincianas de plantão, e escrever (im)precisamente sobre uma figura que não respira…

Consciente, e sem consultar a cabeça, de certo não iria a lugar algum; estático, ficaria como um detrito de memória num deserto desconhecido, miúdo, invisível, feito alguém a coisificar-se. Na ausência de mais um erro, (res)suscitei o poeta, mais uma vez o personagem do poeta paranaense, a soma emocional do poeta maldito e analfabetizado, o propósito argumentativo de uma passagem escrita de tempos em tempos. Em parte, com a leve impressão de ter aqui me expressado num estado de descrença doce e abjeta, como se o nosso redator fosse um falso defunto incompreendido, talvez, resultado tentador da influência das negativas de um narrador-personagem ou de um herói não moralizante, tirado de uma das folhas realistas de Machado de Assis.

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