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Uma tranquilidade falsa

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por Luiz Augusto Rocha

De frente pro boteco da esquina tem um pé de manga. Imenso. Eu até respiro para repetir, imenso. Ele fica em um terreno murado e a gente o vê muito acima das paredes. Hoje, aliás, já há mais ou menos um mês e meio, ele está carregado de frutas ainda verdes.

A tarde vai esmorecendo, perdendo a batalha para a noite e o que era um verde claro e vivo da mangueira se torna algo escuro. Só que isso é tão bonito. A saparia vai ensaiando o coral, de vez em quando atrapalhada por um carro que passa, buzina, um choro de menino ao longe (aquele de quase na hora de jantar).

Um estudante passa mexendo no que aprendi (e não é mais) ser um telefone; uma estudante também passa cheia de um pacote que eu contei até o quarto livro, ela também mexia no telefone. Eu já fui como ela e ele?

É noite, é angustiante, é clichê, só não chove neste filme quase que pretendente a cult… A mangueira continua ali a me incomodar com sua plácida majestade.

Enquanto isto se desenho como uma crônica bucólica de um tempo/lugar saudosamente construído, apenas em São Francisco centenas de famílias seguem sobrevivendo abaixo da linha da pobreza, esperando (embora trabalhando miseravelmente mais do que eu) a vida melhorar.

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Dona Petronília ensina

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por Luiz Augusto Rocha

Encontrei dona Petronília no posto de gasolina onde eu bebia umas latas de cerveja. Exatamente o que estava procurando, buscando no lixo, no chão, entre as mesas e as cadeiras: latas vazias de cerveja. Ela conseguiu encher duas sacolas em alguns minutos e eu a interrompi para conversarmos um pouco.

Aos 76 anos, viúva, mãe de cinco filhos (sendo um de criação, segundo ela enfatizou), mineira de pai e mãe, vivendo há 40 anos em Rondônia e sem o marido há 14 anos.

Dona Petronília recebe um salário mínimo de pensão do falecido, mas, como tem uma doença de pele e precisa pagar o aluguel, as contas não fecham. “Eu junto latinhas, as pessoas juntam para mim também. Esses dias eu consegui 70 quilos rapidinho, 40 dias. O caminhão foi lá em casa buscar, porque eles só buscam mais de 50 quilos”.

Perguntei sobre sua rotina, o que ela faz normalmente, se passava os dias buscando as latas de alumínio. Dona Petronília disse que pega latinhas mais de final de semana, que as pessoas que juntam entregam no domingo. “Já me falaram para não catar durante o dia, que é melhor à noite. Eu não vou sair de noite, correr perigo, eu sou velha e não tenho vergonha de trabalhar assim”.

Durante a semana, ela vai ao culto na igreja na terça, ajuda no templo duas vezes por semana, às quartas frequenta o grupo de orações e vai à escola dominical pela manhã e à noite ao culto novamente. Às vezes, ela visita três das filhas que moram na cidade.

“Elas não vêm na minha casa, não. Ninguém deles vem na minha casa, meu filho saiu de casa com 18 anos e nunca mais quis saber nem de mim nem do pai dele. Minhas filhas têm a vida delas, são casadas, trabalham. É assim mesmo, fazer o que? Eu que vou de vez em quando na casa delas”.

“Não, eu me enganei, tem um neto que me visita, o Frank, ele é pastor lá em Jaru e toda vez que pode ele vem aqui na minha casa, ao menos um pouquinho, mas, vem! Ele é um menino muito bom, ele ajuda muita gente, sabe, ele é pastor”.

Dona Petronília disse que os outros netos também não vão na casa dela. Se ela quiser vê-los, tem que ir “lá”, mas, quando precisam fazer alguma coisa e não têm com quem deixar as crianças, ela que cuida dos bisnetos. “É uma distração, criança é uma bênção. Sei que eles têm a vida deles muito corrida, não dá tempo de ir me ver, então, eu acho bom quando eu posso cuidar dos meninos”.

Ainda impressionado com o trabalho de dona Petronília, perguntei se pelo menos as filhas ajudavam financeiramente e ela respondeu que não. “Minha ajuda é das latinhas, melhorou agora que eu comprei um amassador, paguei 65 reais e mandei pregar na parede lá em casa, facilita bastante, sabe, tenho medo de me cortar, tenho uma doença de pele e gasto muito com remédio, é muito exame também”.

Dona Petronília foi-se indo embora, mas, antes me disse que era muito feliz, que ainda tinha força pra trabalhar, que trabalhou na roça a vida inteira, mas, que não tinha “papel” pra comprovar, “por isso que eu só recebo a pensão do meu marido e o dinheiro das latinhas”.

Tinha que ir logo porque estava se atrasando para o culto, “onde a gente aprende muita coisa, muita coisa boa”. Dona Petronília saiu quando já começava a chover e ao longe vi abrindo uma lixeira e tirando mais uma lata. Dona Petronília me fez aprender muita coisa, muita coisa boa.

Ah, dona Petronília recebe R$2,20 pelo Kg de latinha.

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A vida é perda

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por Luiz Augusto Rocha

Eu frequento botecos, dos mais rastaqueras, daqueles que “bulicho” parece termo gourmet. Botecos rasgados na sujeira e em tudo aquilo que torna o boteco o desaguar e o desafogar (embora estranho isso) de tudo que queima a pele. Nestes botecos da vida, nestes cus alcoólicos desta quina brasileira eu vejo gente e converso.

Joventino, José e Antonio eu os conheci no boteco. Cida (Aparecida) e Júlia, as esposas. Filhos mortos, filhos nascidos, crescidos e mortos, hoje. Joventino perdeu quatro “crianças”, José e Júlia e Antonio e Cida, um cada. De Joventino só ouvi a história pelo filho vivo.

Antonio e Cida tiveram oito, cinco homens e três mulheres, a mais velha tem 43 anos e o mais novo recém fez 27. Entre eles, João. João teria 37 anos, João teve um filho, Ricardo, há um ano e meio, João mudou-se para Machadinho (aproximadamente 250 km de Porto Velho), para perto da família da esposa. E João morreu tem sete meses e 13 dias em cima dum trator.

José é baiano, filho segundo de 19 filhos de pai e mãe. José é casado há 48 anos com Júlia. Júlia tem 61 anos. Nem tudo na vida deles é número, ainda que mais de uma dezena de crianças tenha partido antes até de começar. Zé e Júlia batalham agora pela guarda de Júnior, 13 anos, neto, filho que criaram por 11 anos enquanto o pai trabalhava.

Eu perguntei para o filho do Joventino (que morreu tem dois anos) se a mãe dele alguma vez falou alguma coisa sobre a morte do filho e das três filhas. Nada. Nunca mencionou nada que se relacionasse. Antonio chorou e José, silenciosamente. Cida e Júlia… Fizeram-se de esteio. Hoje o filho de Joventino fingiu que não queria chorar.

Todas essas pessoas me contaram que tiveram crianças sadias, que andaram e falaram ainda pequenos e eles riam das bobagens que crianças falam e dos tropeços que crianças tropeçam. Disseram pelo brilho nos olhos da angústia de cada noite, de cada festa, mesmo que de vez em quando, que esperaram as crianças. Contaram que nunca imaginaram vê-las no caixão.

Estas seis pessoas me disseram que a vida é assim. As outras tantas histórias de quem falavam me falavam tanto mais, deles mesmos, que nem fui capaz de chorar também. Não há lágrima, palavra tão vazia de sentido, que compreenda aqueles olhares que eu olhei…

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Tempo de eleições e de chuvas

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por Luiz Augusto Rocha

O ano começou, a copa chegou e passou, as eleições vieram e foram intensas, muito intensas. Aqui na Rondônia, aqui no São Chico, vivi o meu quinhão em cada um desses processos.

Para falar das eleições, eu preciso dizer antes que vejo gente todos os dias procurando onde é o Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STTR) daqui, muita gente analfabeta, muita gente com muito pouca instrução escolar. Todas essas pessoas com marcas visíveis na pele, uma pele rasgada, queimada, suada, durante muito tempo alijadas do mundo além de suas terras.

São Francisco nasceu do corte da mata, da derrubada para plantio e cria de reses, além das parasitárias madeireiras que sugaram o quanto conseguiram sugar. O município nasceu do trabalho das pessoas que chegavam aqui e compravam a terra de boca e em troca de uma espingarda, uma bicicleta ou algumas notas de Cruzeiro.

Uma gente que não estava muito preocupada com as eleições de 2010 e que foi tomada pelo clima político este ano, independentemente de preferências partidárias. Uma gente que lembra dos que caíram de malária, de febre amarela, de acidentes e de balas marcadas.

Talvez por isso uma gente que não é muito afeita à conversa fiada e desconfia de qualquer “político” que lhe venha prometer mundos e fundos. Não sei como votou cada pessoa, quais candidaturas mereceram seu voto, só sei que votaram e voltaram para a lida, para o cultivar de suas roças que estão à espera das águas e para seus animais que crescem e parem, com a serenidade de quem há muito trata da terra e conhece a natureza e seus ciclos.

A vida segue em São Francisco do Guaporé, hoje mais calma, sem os sobressaltos dos sem tempo, que aqui é mais valioso porque é respeitado, é conhecido e não é enfrentado. Aqui não se perde tempo com bobagens porque aqui a gente pode conversar sem medo do tempo acabar. Um novo ciclo se inicia com as chuvas que chegam.

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‘No Brasil, a esquina à esquerda’

atualizado 11 novembro 2014 Deixar comentário

por Luiz Augusto Rocha

Desde 2009, eu moro em Rondônia e, dentro do estado, no município de São Francisco do Guaporé, fronteira com a Bolívia. Sou paulista interiorano e de interior em interior fui pulando desde que nasci. De Andradina (SP) para Dourados (MS), de Dourados para Andradina, de Andradina para Bauru (SP), de Bauru para São Francisco do Guaporé, de São Francisco para Ji-Paraná (RO) e há um ano e meio de volta à beira do rio fronteiriço.

Um clichê no rol de clichês da vida: foi um choque sair de Bauru com seus encantos universitários para cair na crua realidade de trabalhador no interior da Amazônia, nesta esquina do Brasil, a esquina canhota do país.

Cinco anos se passaram e tenho reforçada a ideia de que meu caminho é A Esquerda, a esquerda do país, a esquerda de Rondônia, oferecendo visibilidade para as gentes que cá se estabeleceram e fazendo-as ouvidas: suas histórias, trajetórias, memórias.

Quando eu me deparei com tantos assassinatos, com tanta pobreza, com tantas crianças fugindo de casa para casar com outras crianças, com tanta violência e brutalidade, com tanta politicagem e com tanta religiosidade forçada, quase pensei que não deveria estar aqui.

Mas, se meu caminho é à esquerda e estou dentro de uma realidade que grita por quem lute diuturnamente contra tudo o que vi e enumerei no parágrafo acima, meu lugar só pode ser aqui.

Enfim, depois de toda essa conversa, só quero dizer que, a convite de Jose Mochila, pretendo relatar algumas impressões de experiências vividas neste canto do país, nesta esquina localizada no lado esquerdo do mapa do Brasil, neste espaço que escolhi chamar de “No Brasil, a esquina à esquerda”.

Abraços, Luiz Augusto Rocha

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