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Pensamentos de bezerro

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

Muitas vezes, o corpo tem dificuldade de acompanhar o raciocínio. Mais um pouco e eu me convenço de outro aceno de publicidade: são muitas as peças de vitrines e de cabides diante de nossas fuças. Infinitas, até. E se alguém inventa ou reproduz uma justificativa por mais um fracasso pessoal, só pode ser para consagrar uma série de desejos impublicáveis.

É quase sempre assim, para não ir muito além de um tema. José, a corrupção é uma erva daninha que permeia a nossa lavoura de imemoriáveis fundos de quintal. Maria, a corrupção tem o seu próprio palco de auditório. Nesta geografia e histórico de república, a capacidade de “responder por si” é conversa de botequim, pra boi pastar e refletir, se boi refletisse.

Estamos condenados! Esta hipótese desgraça fundo a generalidade do otimismo histórico-nacional dos brasileiros. Aquela velha ladainha de deixar o pasto crescer, conforme os seus desígnios de fermentação. O otimismo, o radicalismo, a ladainha, cadê o boi? Rá. Úrrá. O boi ali, já está com a sua boiada perdida no pasto, ali, naquela pastagem! Na sombra. Na água fresca.

Fico, pois, boi… ando com meus pensamentos. Mais uma boiada! Fui advertido pelo primeiro passante: meu camarada, se liga, se toca, se manca, é correr muito ou ser atropelado pela patada mais próxima. Lombo de boi, lombo de vaca. Olha a vaca!, me disse o segundo reprodutor. O terceiro ia fabular coisa diversa, não deu tempo. Dignos pensadores, fomos atropelados… Levanto-me com um riso sem vergonha, reproduzo (pra mim mesmo) que a dor vai passar, a dor vai passar! Distraído, troco o entendido pelo desentendido. Vai passar… Pensei que fosse passar a dor no corpo, a dor de multidão. Ilusão. Mais uma boiada, outra berração. Olha a vaca mor zoando no brejo!

Acabei rindo do próprio umbigo. Até pensei que fosse mais um aviso de pastagem. Dê outro berro, ô seu chucrão! Vem mais boiada aí, companheiro, amigo, irmão – apressaram-se em confirmar o quarto, o quinto e o seguinte passante. Certo de que o pasto próximo não está bom pra peixe. Logo vi. Um, dois, três então se juntam a nós. Amanhã, quem sabe (?) mais quatro, cinco, seis ou sete passantes. Em pouco tempo, ou ao que tudo indica, formaremos o nosso próprio rebanho, seremos a nossa própria boiada, teremos em breve o nosso tão sonhado pasto. E se Deus quiser, o gramado há de ser macio e vivo, tem que ser bem verdinho! (Porque Ele há de reservar-nos um gramado imenso, pelo menos é o que diz parte de sua boiada.)

Por outra imagem, se eu fosse mesmo um peixe, meu pasto seria um aquário de desenho animado. Se eu fosse um peixe, Deus do céu!, o que me interrompe os pensamentos agora, esta sensação de parada cardíaca?! Caçarola, que pasto é este que eu vejo surgindo?! Boiada, olhe a anca daquela vaca, aquela vaca, aquela anca, aquela vaca! Aquela anca, outra boiada vindo atrás? Que anca tem aquela vaca, meu organismo!, que an ca que eu vejo adiante ou vindo não sei de onde!?

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Noticices

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

Predominantemente, as notas ditas jornalísticas variam entre notícias corriqueiras, sombrias e extraordinárias. Notícias corriqueiras, por ser repetidas ou repetitivas para o cotidiano de nossas vidas. Notícias sombrias, pela carga de negatividade transmitida diariamente, como se desta baba verbal exalasse um odor de carnificina feito anúncio alarmista e apocalíptico sem fonte identificável, um suposto atestado de que o mundo acabaria na próxima edição. E, notícias extraordinárias, porque nem sempre a lógica das duas notas ou das duas possibilidades anteriores merece o nosso devido respeito ou crença. Aliás, merecemos ou não, pelo menos de vez em quando, um pouquinho de surpresa ou novidade? Uma vã e curta ilusão às vezes concebida por nós. Por outra, vai saber se merecemos alguma novidade mesmo? Só pra confundir, vai saber se as novidades existem, de fato. Como um dia parafraseei num diário de adolescência: tem gente que confunde boa vontade com otimismo. Por isso, informo-lhes: novidade aqui só se for produto de fabricação caseira. Panela velha é que faz… E se alguém, pela falta de novidade declarada, prefere trocar a leitura desta invenção pela concorrência das Redes Sociais, ou por algum motivo não declarado em cartório, este pode ser o momento mais adequado ou sugestivo para o leitor ou leitora dar uma de Cristóvão Colombo da modernidade imaginária e mudar a rota de sua respectiva caravela no meio desta navegação, assim quem sabe será possível descobrir, vá lá, por meio de um gesto abrupto, a sua tão sonhada ou desejada ambição, tudo para culminar na tal novidade… Continuastes, é? Fico supostamente feliz pela atenção dispensada. Asseguro-lhes por tal correspondência: a falta de audiência de nossos textos pode não ser uma grande novidade também. Feita a sua escolha, muito obrigado por ter piedade de nós. Rá rá rá. Como costumo cantar debaixo de um chuveiro, palmas para o livre arbítrio! Não há mesmo nada de novo debaixo do sol, inclusive esta frase de efeito, que nos parece mais antiga do que andar para trás com a ponta dos pés. Até mesmo esta ideia extravagante de andar pra trás também rendeu comentários em outros carnavais. A propósito, depois da passagem do próximo ano novo (logo ali!?), mais um carnaval surgirá. Anca e pelanca de montão pra todos os gêneros e mercados; não vão faltar ancas e pelancas expostas na telinha da TV e em linhas do tempo. Antes, porém, ocorre a data festiva do Natal. O bendito!, como celebram os cristãos. Caçarola, não era pra eu falar nada de Natal e de natalices antecipadas. Pela falta de novidade, e numa associação estranha com a então crise econômica mundial – juro, escrevi isso há dez anos, je je -, a nossa proposta era deixar o Natal e seu mercado consumidor de lado este ano. Esta história de Papai Noel de barba e bigode brancos por fazer, chaminé inexistente, trenó de pangarés e saco cheio de brinquedos sem selos do Inmetro deixou de ser novidade faz muito tempo. Né não?

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Leitura para quem sabe de Morrison

atualizado 25 dezembro 2015 Deixar comentário

por Jose Mochila

Já não mais me chamo.

Estou fora desta, saio de cena, livre, leve e sem sono? Da forma torpe em que então me encontro, de cueca marrom clara e com a sensibilidade apurada pelo frio de um inverno por vir?

Com a cara amassada, abandono o último lar, um quarto de três metros quadrados cedido provisoriamente por uma permuta. Isso, eu fui um rato de laboratório até a semana passada; deixo de ser um estranho a caminhar sem rumo por ruas esburacadas de uma cidade pouco organizada no sul do país. Tinha um nome, agora não mais me lembro do lugar.

(…)

Refaço-me rapidamente, vestido agora de periodista mediúnico:

– Me ouve, Morrison?

– …

– Morrison?

– …

– É você, Morrison?

– …

Morrison, malucão?

Ali? Juro. Um bloco de notas para imagem de parceiro de identidade curta.

– Ainda bebendo, Morrison?

– …

Morrison, que tal deixar esta banheira?

– …

Morrison, que tal deixar Paris?

– …

Morrison foi parar num cemitério de celebridades da Cidade Luz.

Morrison, que tal voltar para o corpo de adulto que nunca cresceu?

– …

O filho pródigo leva a boca ao gargalo às 7 da manhã.

Ou melhor, posso reconstituir a sua morte lenta e (auto)programada: Morrison com a cara borrada de uísque, boca no gargalo, louco, nariz entupido de giz, no ar, punho ereto de campeão, riso mudo e sem controle algum, olhar descontrolado, desatento de si, como se Morrison fosse um gesto de um deslocado boia-fria no último gole de água trincando de gelada abaixo de um sol forte de três da tarde… Morrison tomando a sua numa roça de canavial do sudeste brasileiro? Não nesta vida.

Morrison? O reflexo da vitrine não me deixa ver mais.

Perco os dedos em bases duras.

 

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jornalista sem solução sobe ao palco

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

Intrometido, jornalista sem solução nos diz:

– Hoje eu devo dificultar o máximo possível; hoje eu devo estar incompreensível, impossível. Se quiser, pessoa, se dirija à realidade. Ou aceite a ordem social vigente. Mais: aceite também a ordem pessoal vigente. Se não entender, releia ou mude de estação. Vai, vai para outra dimensão virtual. Isso; prive-se das ambições e das dificuldades. Pontua um fim confortante. Se entregue a fabulação do existir por existir. A ironia diária não mais te prejudicará no convívio social, pois nesta concepção de vida, a audiência já não faz mais sentido. Reproduza o discurso do dane-se a audiência! Se puder. Prefira um tom aparentemente apaziguador, se desejar. Cara audiência… a frieza desta análise pode ponderar emoções exageradas. Calma. Calma aí? O habitual “espera pra ver o que acontece” pode servir de herança bem dita: ficar à toa na vida e chamar o amor para ver a banda passar de cima do coreto no centro de uma cidade que finge existência. Ecoe o método caseiro da observância. Numa tradução possível, chama-se a Idiotia da objetividade nas palavras de uma múmia do século XX. Experimenta contrariar a moda de quem fala e parte de um suposto e caprichoso centro das atenções. A propósito, é doce o sabor de O puro observar. As manifestações pessoais podem ser perigosas e ao mesmo tempo nada coerentes com os atos. Analisa a reinvenção cotidiana de um hipotético professor de matemática de aulas eventuais do Estado. E que ganha o que merece? Nem tanta importância o dinheiro possui assim na vida destas pessoas. Por acaso o dinheiro governa a vida de vocês desde quando? Não, não me entendam mal: a necessidade não deve ultrapassar o suficiente para o patrocínio dos lanches diários. Qualquer desejo agora pode ser artigo de luxo. Concordem ou não, foi o homem quem inventou o Capeta. É necessário ainda afirmar quem inventou o dinheiro? O excedente de capital só pode ser traduzido como ostentação, sorriso cínico. Vaidade demais só pode ser gesto bem sucedido na análise didática de Max Webber, acerca da Ética protestante na era do capitalismo. Neste caso, o céu também só pode ser artigo para burguês decadente pagar a sua conta a prazo longo e a juros baixos, financiado por instituições governamentais. Sem querer ser alguma coisa… Ato falho, cara audiência; ato falho, ainda esta história de tratar sobre a matéria de que não teria nada de matéria, se não fosse uma invenção humana. Era o que eu deveria ter considerado já no início desta leitura. Se a ordem dos atores não altera a representação do palco, melhor ser lacaio de algum poder instituído? melhor deixar me levar pela lei das leis, a lei do menor esforço? Se eu pudesse, eu espalharia esta ideia em papel picado do alto de minha débil vaidade; agora não me interessa a materialidade e verossimilhança desta composição, e olhe lá. Acreditem ou não. Esta foi mais uma experiência de um principiante na arte de propagar o desejo humano mais forte entre os atestáveis: a destruição e a reinvenção das tradições culturais; coisa de iconoclasta, sujeito sem torcida, e com mania de franco atirador.

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Palavras, epitáfio

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

O otimismo é daqueles que enxergam demais ou o otimismo só pode ser daqueles que enxergam.

De volta. A figura que aqui fala? Ué, quem fala? Dito: quem vos fala é um defunto (grifo do autor); redito: quem vos fala não é um defunto – no máximo, o sujeito desta fala só pode ser um defunto em potencial, como qualquer um que respira com ou sem a ajuda de aparelhos auxiliares; quem vos fala é uma figura sem epitáfio.

Este sujeito volta após um intervalo de recordação: ele estava se escondendo feito uma coruja em cima de uma árvore esquecida, próximo de uma esquina não localizável, no centro de uma cidade do sul do país esquecida no tempo – uma crise de ocasião.

Falo de uma crise que sugere outras crises. Já ouviram falar na crise do autor brasileiro? Dizem que o autor brasileiro – o genérico – morreu numa narrativa em meados do século passado; no exterior, eu não sei precisar a data, mas no Brasil de meus amigos brasileiros – conforme avaliam críticos de crises formais –, o autor foi assassinado numa novela de Clarice Lispector. Em sua última solidão, o autor nativo levou debaixo do braço um livro da notável escritora de Tchetchelnik. Chama-se: A hora da estrela.

Do poleiro de sua vaidade, do cume de seu galho espiritual, o herói desta invenção crônica acionou seus olhos de coruja míope; no intervalo de uma piscadela, a figura ingênua vislumbrou uma passagem – na sua avaliação – digna de reprodução e de referência: página dezoito de uma edição de 1998, editora Rocco. O narrador-personagem  da obra citada, o nomeado Rodrigo S. M., abusa do poder de suscitar imagens; é justamente ele quem proclama o fim da autoria brasileira: “(…) Antecedentes meus do escrever? sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo um desonesto. E só minto na hora exata da mentira. Mas quando escrevo não minto. Que mais? Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou”.

Interpreto na passagem um pretenso e pitoresco fim do autor brasileiro (ou do que se entende como tal). E para espinafrar os críticos de letra menor, (ironia!) o autor deste alarme falso afirma categoricamente na forma caricata de um crítico de letra menor: o autor genérico morreu na página dezoito de um livro originalmente lançado no ano de 1977, sem salvo engano de nota; agora, caso esta avaliação não possua contornos de materialidade corporativa, então podemos decretar: o autor nativo da vida real morreu!

(Mas os objetos artisticamente produzidos não continuam sócio cristalizados?)

Por deleite de acabamento, invento que a responsabilidade por minhas invenções crônicas volta a ser da figura que oferece voz (dito e redito, o grifo mais uma vez é do autor), sujeito voraz, otimista e sempre à espera de um provável epitáfio.

P. S. : Plagiei a leitura do autor Renato de Souza.

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A mais nova última invenção

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

A vontade às vezes se alterna entre o desejo de não dormir e ficar sempre acordado e o desejo de dormir e não acordar mais. Parece desejo de morte; alguns podem ver tal retrato como um desejo de paz; os demais devem ter coisa melhor pra fazer, de fato.

Visualizo a paz suscitada num chiclete grudado num pequeno buraco de uma parede, uma abstração que o chamado “homem de bem” insiste em negar, uma ideia que não cola mais. A propósito: o que fazer com as ideias que apenas nos servem de muletas?

De escora, o anti-herói desta época de narcisismos e de monstros midiáticos tem a posse especial de uma cadeira – o que muito lhe sustenta a gravidade da vida. O cansaço pode ser descontado na superfície visível de uma cama. De vez em quando o repórter sai a campo e esbarra numa testemunha que lhe desabafa miudezas particulares: a arte de coletar informações para o nosso guia secreto de sobrevivência. A paz está com Deus? A paz está com os Homens? A paz não passa de uma grafia? Desconfio que “os nossos guias de sobrevivência” não possuem informações confiáveis, muito menos superlativas.

Um capricho para entender que a paz pode não passar de mais uma palavra com múltiplos sentidos. Dentro da cachola, as ideias voam livremente, quase sempre a realidade que nos cerca cai na vertical de um céu como o rascunho de um pássaro que súbito perde as asas da liberdade fabricada. A paz é a ausência de.

Não sei exatamente porque me importo em repetir o que não enxergo direito. Se um sujeito nasceu sem asas, que lhe importa os formalismos metafóricos de ocasião? Na realidade recorrente, percebemos um cotidiano parcialmente visado, o assunto principal que deveria ser bem melhor definido.

As ruas e avenidas de grandes e médios centros estão sempre abertas, poucos percebem o trânsito caótico. A paz não pode ser um desejo coletivo; vive-se mais dentro de casa do que… Vejo a cidade como um retrato universal; sua imagem é curiosamente a ausência de. Convenço-me repentinamente que a paz universal pode ser um desejo particular, muito particular pensar que a paz pode ser um desejo particular – motivo que pode suscitar um arrepio na testemunha mais próxima: a paz está no ar; quem sabe a paz esteja mesmo no ar para qualquer um que deseje ver o que lhe cobre o bendito umbigo.

Volto à ausência de. Desde quando o que nos “falta” deixa de fazer sentido?

Hoje, eu tenho algumas perguntas; ocorre-me a falta de respostas. E se às vezes invento respostas, só pode ser para criar caso. Normalmente as respostas são infinitas e de difícil entendimento. Quem questiona (muito) os cantos universais, ou quem procura o (auto)conhecimento sem descansar um pouco de si pode não ver um naco que seja de paz suscitada. A paz é uma boa pergunta, a ausência de paz é o sinal da nossa mais nova última invenção.

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Fantasmas a a a solta?

atualizado 21 dezembro 2015 Deixar comentário

por Jose Mochila

– Já falei que os fantasmas estão a a a solta?

É o que eu tenho exprimido com tinta preta em papel fora de moda ou espremido com a ajuda dos dedos das mãos até a última gota do tão fadado bagaço da laranja.

É. Não sei se a afirmação/admissão pode suscitar gestos de incompreensão ou caricaturas de espanto na testa oleosa da pessoa que me lê agora. Se não me entendem, paciência:

– Já falei que os fantasmas estão a a a solta?

A dicção pontuada continua a mesma das últimas aparições, que se abrem nas paredes vizinhas como se, de fato, paredes de concreto ou de madeira pinos – que nos isolam temporariamente do mundo – fossem portais ou painéis iluminados para nos iludir como crianças. Abrem-se de pontos invisíveis da atmosfera miúda. Abrem-se de janelas e portas redondas e distantes. Abrem-se de qualquer vazio supersticioso. Abrem-se da ausência de qualquer tipo de explicação científica.

Pois, agora mesmo vejo uma figura ali! Vejo-a sentada em cima de minha diminuta estante de livros esquecidos. Olhar de dissimulação. Vejam só, a figura folheia ou finge interesse num encarte de apostila de vestibular, (imagino) na tentativa de que eu vá lhe chamar a atenção com um olhar bajulador ou ditatorial. Pasmem! Não vejo nada além de um contorno de pessoa com cara de tacho apagado. Momento para fingir existência, plena descarga de energia mental.

Uma madrugada de uma data sem importância, um intervalo para um café. Na volta, a figura da estante de livros esquecidos continua entretida com o encarte de apostila de vestibular. Eu finjo que não a vejo novamente. Com o canto dos olhos, percebo que ela também finge que não me vê novamente.

Até certo sentido, evito sua aparição. Tento. Novamente. Na verdade, me distraía com a reorganização de papéis. Efeito de sentido. Passo a perceber outra figura no canto oposto do quarto! Por sua vez, esta também aparenta certo olhar de malcriação. De distintivo, apenas um bocejo descontraído no rosto.

Ainda pude notar duas outras no ar, como se pela estreiteza do moinho de água não rolasse apertado um tempo perdido. “Cada uma no resguardo de seu respectivo canto, ok?”

Recapitulo. À minha direita, estava uma representação do encarte de vestibular, dependurada numa estante de livros esquecidos; à esquerda, uma imagem de um bocejo descontraído.

Por filosofia, eu mirava o teto dos próprios sentidos, sem saber então da direção dos sentidos – se é que a direção dos sentidos se contenta com apenas duas imagens aparentemente distintas.

Da porta do quarto, pela extremidade que dava passagem à uma cozinha, ganhou vida um estrondo de bateria de escola de samba… Drown… Drown… O ruído de batuques comercializados de um iminente carnaval que eu não quero prestigiar. Um sono me apagaria no início da última consideração, na hora exata da queda não exata de minha consciência pessoal.

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Entre viúvas de Clarice

atualizado 20 dezembro 2015 Deixar comentário

por Jose Mochila

Se eu estava presente quando os primeiros acentos apareceram vindos diretamente do espaço sideral? Não que eu estivesse num vazio de chão, eu não estava embora quisesse estar sabe Deus onde eu queria estar naquele princípio de enraizamento. Acontece que eu pensava na condição de aluno especial; podem assim me chamar neste instante de falso trocadilho. Uma a uma, as cadeiras foram ganhando um contorno inesperado de lacuna a ser parcialmente preenchida. Em minutos, em segundos, um cosmo. Um giz. Um apagador. Um ventilador. Na parede um mapa com a ranhura geográfica de Portugal, a pátria fila da mãe dos brasileiros. Até que as demais coisas se comportassem em seus lugares, pensei que eu pudesse ainda buscar pessoas distintas para além de meu horizonte. Ocorre que eu cheguei ao encontro antes de um aviso protocolar. Passei a me notar entre moços e moças com trajes de velório; de repente, sou envolvido por figuras esquisitas. Os colegas foram chegando com a cobertura de um grande guarda-chuva azul escuro, cada um buscando o seu devido posto. Uma, duas, três. Fui contando com o olhar. Uma delas era um. Minto. Duas delas eram um. Observei tal particularidade em silêncio. Avancei pra quatro, cinco figuras. Agora são seis e sete. A sala ia encher? Mais ao fundo, avistei o oitavo esquisito. Nove, dez…? Camuflado junto ao quadro negro (que não tem nada de negro), surge a aparente obscura figura de Gilberto Ferretto. Trazido da ou com passagem figurada pela Universidade de b. Diante desta cabeça pensante de incitado sucesso interestadual, vemos um retrato de contorno simbolista. Um especialista de manias e cacoetes ocidentais, travestido de marginal de roupa limpa. Um retrato de ar de mistério, pedantismo e riso mudo – eu pude crer neste seu tom performático. Bem que eu queria que fosse semelhante a careta e a pretensão desta persona com a das boquiabertas ao redor. Então percebemos um estrondo de silêncio. O olhar do professor era mesmo de alegria dolorida. Rente à porta. Mais um integrante que tropeça na própria timidez. Outro ser bem-vindo? Exceto eu, que conta esta história, todos pareciam jogar pá de cal na Universidade Estadual Paulista – Unesp de Assis. Entre viúvas de. Ao final de quatro horas de uma palestra sobre Clarice Lispector, eu já não mais me considerava um incompreendido traduzível .

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