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Acredite, eu vou explicar para você entender as coisas

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por Elizabeth Suarique, a Bete

Acredite, eu vou explicar para você entender as coisas, é história antiga, esses comunistas só fazem barulho, só na putaria, na vagabundagem, escolheram um presidente sem faculdade e uma guerrilheira só pra ficar na modormia, é se encostar em nós, as pessoas de bem, pessoas nobres que trabalham o dia todo, já se viu: você manter esse bando de vagabundos… sente aí e me escuta, eu vou explicar para você, o que acontece no Brasil.

Eu não sou racista não, eu gosto das pessoas, eu até sento à mesa com o negão, eu cumprimento a neguinha do acarajé… essa mesma, aquela dos filhotes que brincam quase nus o dia todo, enquanto a nega fofoca o dia todo com as vizinhas, mas eu não sou contra isso não, ela gosta de viver assim, na miséria mesma, mas repare, eu fiz minha faculdade, antes a gente era séria nos estudos, nada de comer água não, de morder a batatinha… rapaz, você não tem noção… eu chegava à faculdade bem cedinho, tinha todas minhas anotações, levava fichamento impresso, li todos os livros que o professor falava, ninguém falava em comunismo não, é assim que me formei, e depois a pós… quando ainda não tinha bolsa, então, o que fazer… a gente tinha de trabalhar mesmo? Sim, é verdade, meus pais enviavam uma grana para a gente se manter, eles não deixavam pegar ônibus, oxi!  Nessa insegurança… e isso de compartilhar apartamento ou morar em república, assim a gente não consegue se dedicar aos estudos… bom, nesses dias os colegas quase todos da escola privada, porque é assim, você sabe a gente tem que aprender bem o que é, os meus pais sabiam as coisas, se esforçaram muito por pagar o ensino privado, eles ficavam assim, horrorizados com esse povo aí da escola pública, essa mesma que agora o jornal disse que é escola de traficantes viu, então, o dia todo em protesto pelos direitos dos professores, dos estudantes, trancando o trânsito, é por isso que eu fico virado do diabo quando fico trancado nesses engarrafamentos cada vez que o povo se manifesta em favor desse governo corrupto, porque vou te falar, há quanto tempo minha filha a gente tá esperando a construção da ponte, primeiro os estudos, dois anos, depois a licitação, mais dois anos (mais a propina, pode crer) e logo essas máquinas tirando as casas da beira do mar, coitadinhos dos moradores deixaram seu teto de palha, mas com certeza o governo deu para eles uma grana boa, e o que eles fizeram? Só no come água, então quando tiraram as casas e revoltaram a lama, aí o enredo da Petrobrás, da lava-jato e logo impeachment, aí tiraram as máquinas, levaram de novo para capital, deixaram a lama e a nós sem a ponte viu. E todo isso aconteceu no governo do PT… todo esse pessoal aí do PT, esses comunistas com a propina criaram as empreiteiras que ganharam as licitações, aí malandragem, levaram o dinheiro e agora o prefeito diz que vai abrir outra licitação para fazer a ponte.

Mas, eu não tenho nada contra o povo, eu gosto dele, só que eu não vou manter essa vagabundagem aí, a última vez que eu foi para a minha cidade, lá no interior, a praça cheia de habitante de rua, e repare, eles recebem bolsa família, então, eu vou trabalhar o dia tudo, pago meus impostos e ainda assim, não consigo sair à rua, com a minha família porque tem malandro de bolsa família… ah, sim, meu filho tá na faculdade, sim, na federal, ele até compartilha aula com dois moreninhos, gente boa eles, mas de família assim bem humilde, da roça, eles chegam cá em casa, cumprimentam a gente, são muito respeitosos, falam baixo, vão para igreja, meu filho mais velho? Sim, ele se formou e logo foi para a federal fazer a pós, recebe bolsa sim, é… tem seu carro e a sua namorada não gosta do cheiro do ônibus, passa mal a coitadinha, então a gente ajuda ele enquanto termina o doutorado e logo o pós-doutorado que ele quer fazer lá na Europa, só tá esperando que o governo libere alguma bolsa sanduíche para ele fazer.  Então estava explicando para você, eu não estou contra do povo, mas desse governo corrupto sim, você já assistiu o jornal da tarde? Tem que assistir viu, assim você sabe das coisas, grampearam ex-presidente ligando para a presidenta, eles falavam mal, só palavrão, imagine, eu acredito, nem fizeram faculdade, pode crer, mas esse povo burro votou neles… ah, bom, no começo eu também acreditei, depois dessa crise dos anos 90, você lembra? Ah, não, você não sabe, você não é daqui não, quando o presidente fez confisco de poupança… sim, esse mesmo, o ex-presidente que agora é senador, sim, ele aí falando que tinha que trocar a moeda, aumentar impostos, reduzir a burocracia, depois todo mundo ralhado viu, eu lembro sim, a cara do avô, assistindo o jornal,  ficou pálido, ele  perguntou, “então, e meu dinheiro no banco? Cadê ele? Aí o vovô ligou para o neto que fazia economia, para ele explicar ao avô que não perderia a sua poupança, só ficaria em segurança uns 15 meses, pode crer, o velho quase surtou, pois é, foi duro sim, minha família passou mal, depois disso, os avós não chegavam  nos aniversários dos netos, muito difícil ir de carro, e as passagens aéreas pelo ar, sem usar a sua poupança, o único que eles tinham, aí a gente acreditou, tem algo errado nesse pessoal, assim que o Lula foi apoiado por pessoas nobres viu, todo mundo na pindaíba, os comerciantes, os industriais, assim no fundo do buraco a gente acreditou nele e escolheu ele, só que a gente não achou que fizera baita bagunça, ele só precisava dar a cada qual o que precisava, recuperar nossa poupança,  render os juros justos, tirar o lixo da rua, trazer segurança nas cidades, ter maior credito no banco, aí a gente conseguiu comprar logo a casa da praia e foi por essa época que a família toda foi para Miami nas férias sim, a gente tinha grana, mas porque trabalhou o tempo tudo né, não foi nada de graça não, por isso eu fico retado, minha filha  quando escuto que estudante da graduação, olha só, da graduação, vai de graça com os impostos da gente para os Estados Unidos ou mesmo para Portugal, o que você acha? Pode crer…, mal sabem falar português com esse acento errado, só falando palavrão, vão conseguir falar inglês, oxi, logo, voltam para casa de estudantes, de graça, tem seu rango, de graça, e a até bolsa de permanência eles ganham, vai olhar seu rendimento acadêmico, pelo chão viu, assistem a aula? Não, porque o rapaz tem depressão, sente saudades da sua família, mas para festa está pronto, além disso, agora o governo deu por trazer estrangeiros para faculdade, mas estrangeiro de país pobre viu, daqui da América Latina, porque não trazer estudantes de países desenvolvidos? Mas eles não vão querer chegar neste povo indisciplinado não, que só gostam de mexer o quadril…

Todos esses processos foram abertos no governo do PT, toda essa corrupção é culpa deles, eles tinha de saber das coisas… antes não tinha? Não… bom, a justiça que sabe, o justiça tá concentrada no impeachment , não tem tempo de olhar nessas contas da suíça e dos papers de Panamá, o jornal da noite nem fala nisso, não deve ser importante não, isso eles fazem depois, o primeiro é acabar com esse governo corrupto… Olha, eu não sou contra a democracia, eu até acho bom que tenham uma cota para o povo de cor, eu apoio a diversidade, mas repare, não apoio promiscuidade, meu tio, o militar, falou para nós que na época dos governos de assembleia militar, é bom falar nos termos né, as pessoas eram muito corretas, respeitosas com a autoridade, não tinha bagunça, o povo se comportava se não para a cadeia, com certeza, você falava mal de alguém, aí a polícia militar prendia, levava para cadeia e o jeito de manter a ordem, não e assim que diz na bandeira? Então, sim, eu acho que os militares cometeram erros, mas esses comunistas da Cuba estavam ameaçando nosso país, e já viu no que deu, até cubano tem que chegar cá tirar o trabalho dos médicos de cá, enquanto todos esses países comunistas ainda na pobreza, nosso país não, porque a gente trabalha viu. Então, você é de onde… pode crer…, mas você é pessoa boa, eu gosto de estrangeiro, sempre é bom explicar para vocês o que acontece no Brasil, e só assistir o jornal da noite, depois da novela e aí você já fica para assistir o BBB…

Brincadeirinha da Beth

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Os abraçadores das árvores

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Um outro mundo é possível?

por Elizabeth Suarique, a Bete

É possível viver conforme outros princípios? O sonho hippie ainda tem seus seguidores e ficar perto deles da vontade de tentar.  Agora estou com os abraçadores das arvores do Rio Grande, gente fina que aproveita o esforço de seus parentes para se libertar da acumulação dos bens e procurar sua felicidade. Casa, emprego, despesas, aposentadoria, não faz parte de seus planos. Eles trocam o sucesso econômico pela horta, a construção da casa caipira e uma vida simples, sem plásticos e isopor contaminante. Essa a geração dos filhos da democracia. Nem tudo mundo pode aprovar o seu modo de vida, pois para alguns pode ser uma atitude abusada, já que os pais se esforçaram a vida toda para oferecer a seus filhinhos aquelas coisas que eles não tiveram na sua infância,  no entanto alguns destes filhotes cresceram no ambiente da paz e do amor à liberdade, em consequência, agora se acham com a coragem para se afastar dos padrões de sucesso, discurso velho! A sociedade bem sucedida quis poupar o sofrimento das crianças, então a família fica numa fria quando o gurizinho de 25 anos decide largar a faculdade, procurar um emprego simples de garçonete e morar com os seus amigos, numa baita ocupação lotada de artistas e peregrinos.

Na verdade, o abraçador da árvore fez uma escolha, mudou o estereótipo de pessoa bem resolvida. Após conquistar o sucesso econômico, o cara resolve se demitir da sociedade de consumo. Ontem um abraçador falou para mim como às vezes recuar nas economias compensa com a felicidade, também se pode viver com pouco, não precisa se matar de um infarto, chegar à solidão na raspagem da pedra pra advertir como sua saúde esta danificada pela histeria da aquisição, essa ilusão de acreditar na acumulação de bens e dividas para garantir a qualidade de vida. Mas qual vida? Questionam eles. Por enquanto, os filhos da Mãe Natureza quer ser pobres, vestir do brechó, viverem da pesca, do pão feito em forno, da horta, dos ovos de codornas… Será possível? É sim, ao que parece as pessoas conseguem mudar as prioridades da sua vida, eles não dependem do excesso da tecnologia  para achar o conforto, de fato, a Natureza oferece todos os recursos que as pessoas precisam para viver. O estilo de vida é um processo assumido na maturidade, pois significa se emancipar dos padrões sociais para se aceitar na diversidade, para aprender na experiência direta, acreditando não na solidão do individuo, mas na companhia dos outros seres da vida, na descoberta de todos os níveis de consciência possíveis. Para eles a faculdade se faz na estrada, nas viagens de bici, na aprendizagem dos ofícios feitos a mão, aqueles conhecimentos que não podem se certificar na plataforma lattes.

Achei estes abraçadores das arvores muito requintados nos seus gostos musicais, samba só até a Clara Nunes, tango, jazz, clássico e os dinossauros do Rock. Da cena nacional aqueles baita underground, as músicas urbanas tem que chegar com alvará para se ouvir num sarau. Os diálogos com eles é um sermão de dados estadísticos sobre a diminuição dos recursos naturais, relatórios científicos sobre as contraindicações  dos produtos farmacêuticos, tudo isso aprimorado pela mostra no mapa das paisagens naturais do seu território, com o pano de fundo de um som bem legal de Mano Chau. Em quanto à política, permanecem à margem, pois acham ao brasileiro classe A, B, C, D e E o culpável de todos os desacertos. No entanto também tem seu bairrista, aquele que se acha o profeta da Mãe Natureza. Ele não admite os produtos culturais da mídia, implica contra o sistema e rejeita o cumprimento da lei, no entanto, aproveita toda a assistência social. Nos temas das artes parece detido nos anos setenta, numa forma psicodélica da beleza, mas sem perceber que até o hipismo mudou também.

O perigo de se ligar a esta galera, é você esquecer seus planos de sucesso, se questionar sobre suas escolhas e até terminar recusando o uso do desodorante em beneficio de seu cheiro natural. Foi o que eu percebi de longe, na rua, no parque, na universidade, e de perto, na amizade, na parceria. Infelizmente para os abraçadores das arvores o mundo pode ficar estreito e seletivo. Você conhece um abraçador da árvore que leva para outro, e assim em diante. Os abraçadores das arvores  procuram-se pelo cheiro, pelo visual, todos  irmãos num bom astral. Gostei do convívio com esta galera, mais uma experiência neste Brasil cada vez mais complexo de definir num ritmo só, numa cor só, numa vida só. Pode ser que eu esteja enganada, ainda sou muito ingênua para compreender algumas coisas destas terras do sul.

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Salvador, Bahia Território Africano…

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Salvador, a cidade multicultural

por Elizabeth Suarique, a Bete

Certa vez uma colombiana foi para Bahia, a estrangeira na sua atitude pesquisadora, fiz uma viagem de trabalho de campo e cultura geral pelas praias e povos do litoral baiano. Pegou sua mala, guiada por um baiano tagarela que a convidou pra passar as festas de natal na sua terra, da qual ele sempre falava com muita saudade, lá nas terras frias do Rio Grande, onde os dois se conheceram na prática dos altos trabalhos. Um bocado de experiências boas e ruins, e muitas palavras novas experimentou a estrangeira maluca, mas, sobretudo ficou fascinada pelo monte de exceções que aconteciam cada dia nessa Costa do Cacau.

Embora as paisagens fossem maravilhosas, o encontro de gente fina, elegante e sincera, como fala a titia Fêfe, foi o mais grato para ela, pelo acolhimento das pessoas que foi conhecendo no seu périplo, conseguiu acessar as rotas que já mais uma vítima do pacote de turista poderia experimentar.  Sabe-se que a estrangeira curiosa sempre olha para as coisas com esse fascínio na descoberta do diferente, na cidade de Salvador, ela teve sua primeira impressão, o primeiro recorrido foi pelo Elevador Lacerda, empresa doida de um homem que ficou em falência pela construção do elevador que agora leva seu nome, com 30 centavos você passa da cidade baixa para a cidade alta, ali poder pegar para a direita ou para esquerda, (sempre tem que ser tão radicais assim?), segundo o rumo escolhido você acha os caminhos empedrados, a estrangeira formada em letras ficou num devaneio mesmo: estava pisando o empedrado recorrido pelo Gregório de Mattos, caminho à  igreja de São Francisco, cujo altar esta composto de uma obscenidade disfarçada nos olhares dos anjinhos perturbadores, ali, o turista tira foto com as baianas de prenda branca e desse modo ele  pode ostentar que conheceu Bahia. Primeira exceção: olhe mais para lá, no boteco da esquina a baiana num sol do diabo, embrulhada em rendas, com uma bem gelada na mão, aborrecida de fingir sorriso por 20 reais a foto.

Dá a volta, reencaminhe os passos de Mattos e como ele, vai para o outro extremo, vai para a rua barulhenta no qual o turista branco não põe pé no chão, tá cheio de lixo, é verdade, mas tem aí a Bahia, olha, não tem como caminhar sem entrar em contato com a pele dos outros pedestres, nenhum rosto é igual, nenhuma cor da pele tem a mesma maciez e o mesmo cheiro. No mercado das lojas de varejão, eis o povo que canta Saulo,  aí você compreende porque a Bahia é o segundo estado com mais povoação negra depois dos países de África, assim definiu a estrangeira maluca a Salvador: a cidade dos opostos, cidade baixa, cidade alta; a rua  do largo do São Francisco cheio de turistas brancos-vermelhos de chapeuzinho de palha e havaianas novinhas, do outro lado,  a Av. de José Joaquim Seabra, concorrida de peles pretas de todas as cores.

No entanto, a colombiana ficou atrapalhada nessa primeira experiência, não conseguia entender os códigos desta cidade e por primeira vez desde sua moradia de um ano no Brasil, ela se sentiu completamente estrangeira. Levou-lhe um tempão pra se acostumar a musiquinha da fala baiana, alongando as silabas, fechando quase num assobio o final da frase. As gírias e os modos de se comunicar pela gestualidade é o caraterístico, a dica é assim, você só olho no olho, aí você já sabe… Embora seja um povo hospitaleiro, a cidade de Salvador oferece ao turista o que ele quer, mas quando você tenta entrar na dinâmica do cotidiano a coisa muda, alguns  baianos esperam que você compreenda tudo de uma vez só. Isto aconteceu a estrangeira que teve uma experiência ruim ao pedir num estabelecimento uma bebida fria, o atendente ficou ofendido e seu acompanhante baiano teve que explicar para ele que ela era estrangeira e que ela queria falar era uma bebida gelada, aí a estrangeira quase entrou numa fria. Em fim, são coisas da língua, muito simples, mas revelam sempre até onde um povo exige a destreza no uso dos códigos. Sim, Salvador é uma cidade multicultural, todos os sotaques, todos os idiomas possíveis, Salvador é uma cidade diferente em cada canto como o Pelourinho e o bairro Liberdade, ou você passar a tardinha na Sorveteria da Ribeira de dia e logo experimentar a balada a noite cheia de malandrice. A colombiana ainda tem saudade desse périplo e acho que ela vai voltar, pois precisa decifrar os códigos da Baia de Todos os Santos…

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A filosofia do lepo lepo

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A chamada ostentação da música contemporânea brasileira (Imagem de reprodução)

por Elizabeth Suarique, a Bete

Ainda estou esperando o tema sucesso para o carnaval 2015, acho o nordeste o pregador oficial das músicas da folia. No ano passado o lepo lepo irrompeu na festa desde o mês de novembro de 2013 e ainda em agosto deste ano foi tema obrigado na balada, os estrangeiros no mundial adoraram! Até na semana de Páscoa em Montevideo foi o tema para dar a bem-vinda ao turista brasileiro que agora gosta muito de dar seu rolezinho pelo país da fumaça liberada. Mas, o que significa o lepo lepo? Perguntei para meus colegas das letras e da linguística aplicada, mas ninguém conseguiu traduzir para mim, procurei nos dicionários o tal vocábulo, me achei entre o lepismatideos e o leporídeo, esquisitices da ciência taxológica para falar de traças e coelhos, no entanto, nada de lepo lepo.

Com certeza, na hora da festa todo mundo sabe o que significa, é só mexer o quadril e balançar a mãozinha, o resto você entende né. Coisa boa aprender o sentido semântico de uma palavra no baile mesmo. Alguém pode acreditar que esta estrangeira doida tem aprendido as musicas mais ruins é que não são as representativas da cultura brasileira. Quando cheguei ao Brasil imaginei que a Bossa Nova, o samba e a timbalada fossem parte da cultura geral, imaginei um coral de brasileiros confraternizando sempre ao redor das músicas com mensagem, com letras que são verdadeiros poemas nas vozes da Maria Bethania e do Gilberto Gil. Estava enganada, me encontrei de frente com as músicas da Valesca Pouposuda e seu beijinho no ombro, Anita e o show das poderosas e a música para cortar as veias com biscoito maria, do sertanejo universitário.

Para a minha salvação, teve pessoas muito cultas que acharam uma barbaridade ouvir-me cantando num português ruim as músicas da baixaria, estas pessoas muito compreensivas com a minha ingenuidade, explicaram para mim como essa música não significa nada, não tem profundidade, coisa de baixa categoria, para alienar esse povo que, infelizmente, não tem educação, a massa que não tem cultura. Embora, não é diferente ao que acontece nestas sociedades globalizadas. No meu país acontece, nas metrópoles e na cidazinha do interior. O que chama minha atenção é o jeito para  resolver a questão, achei muito afim as atitudes brasileiras, porém, vamos falar da filosofia do lepo lepo.

Uma coisa que eu aprendi deste povo é sua disposição à pegação, isso não tem a ver se você mora no sul ou no norte, no centro oeste ou no sudeste, a putaria é a mesma, só que alguns disfarçam mais que outros. O lepo lepo fala dessa atitude: o cara está ferrado com as dívidas pela ostentação de ter seu carro novinho, não consegue pagar com o salário de miséria que não chega na hora certa e, além disso, fica na pindaíba sempre. No único que o cara acredita é não seu tesão, se acha um cara gostoso e vai perguntar para sua namorada o que é importante: é dinheiro, é amor ou cumplicidade, mais se quiser ficar é por que ela gosta de seu rá rá rá lepo lepo…  então, acho que homem brasileiro resolve com seu desempenho, ainda que não tenha carro e não tenha teto.

Nada diferente ao que se pode achar nas músicas do Tango mais arrabalero, na canção Plástico de Rubem Blades o nos personagens de Julian Sorel ou nossa querida Emma. Em fim, o que distingue a música brasileira, além da crítica social é o movimento do quadril.  Olha todos os aspectos sociológicos que uma estrangeira pode perguntar ao respeito, até da para uma dissertação. Se o Psirico fez uma análise desde o padrão neoliberal ou dos estudos culturais, não tenho certeza, mas como aprendi na ciência literária: o crítico tem que diferençar a intenção do autor da recepção do público. O lepo lepo reflete essas circunstâncias da vida pós-moderna no qual cada pessoa tem que adotar um rol do consumismo para ser reconhecido. O assunto chega até no modo de se representar nas suas práticas sexuais, neste caso do homem que tem que assegurar seu tesão dentro da ordem social. Por outro lado, a mulher, bem implícita no assunto, oculta no pronome “Ela” (e aí vem o assunto do gênero, mas me perdoem, não vou mexer nisso que eu não milito nos movimentos feministas), representada como a mulher interesseira ou aquela cuja função é com prazer o desejo do homem. As músicas populares saem das situações concretas da vida, temas com os quais a maioria pode se sentir identificado, embora faça sua escolha a favor ou em contra. É só sair para a rua, sobretudo nestas datas de comemoração, o cara no seu carro, bem devagarinho, de óculos escuros, fazendo ostentação, a mulher acorde a esta atitude com seu salto 25, seu vestido solto à espera de uma cantada.

Acho que vou ganhar briga, mas não procure moralidade nestas palavras não, é só o olhar de uma estrangeira que escreve um português ruim, que às vezes compreende tudo errado. Já terei oportunidade de aprender direito às coisas verdadeiras da cultura brasileira. É isso aí. Boas festas e se alguém conhece a música do carnaval 2015 me diz que eu curto!

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Fique à vontade

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por Elizabeth Suarique, a Bete

Alguma vez eu fui a hospede que pedia licença para pegar a colher, para pegar um copo de agua, para mexer a cadeira, até para espirrar; minha anfitriã achou que eu era incapaz de me virar sozinha, mas, na verdade, eu estava apavorada de fazer alguma coisa que incomodara ela, pois eu estava no seu espaço. Ao final do dia a mulher explicou para mim o sentido desse “fique à vontade” que havia falado assim que eu entrei no seu apartamento, então tive que explicar para ela minha confusão com essa frase, é o seguinte:

Poucas expressões são tão aconchegantes como esse “fique à vontade” do povo brasileiro.  Aonde a pessoa chegar será bem-vinda com essas palavras para ser aceita e se sentir acolhida como mais uma da comunidade, por não falar da família.  No primeiro momento o estrangeiro acha estranho essa amplitude, estamos acostumados a reverenciar a individualidade e a privacidade, porém resulta constrangedor o excesso de confiança oferecida. Ficamos paralisados, pois conforme nossa experiência ninguém oferece ajuda a ninguém sem uma segunda intenção. Sinto muito, é nosso jeito de ser, sobretudo porque não temos, pelo menos no espanhol, uma expressão para oferecer ao hospede a chance de agir de acordo com sua própria vontade (temos a expressão “sientase como en su casa”, mas acho que não serve para o caso). Infelizmente, a “boa educação” instrui sobre como se comportar, não pedir nem aceitar coisa de ninguém, agir com independência e não estar sujeito aos outros. Pedir ajuda ou aceitá-la pode ser suspeito de malandragem, especialmente quando você chega a um contexto desconhecido. Além disso, na pior das situações não aceitar a generosidade libera você de agir generosamente com o outro.

Mas não culpe o estrangeiro, na verdade, é difícil compreender esse “fique à vontade”,  pois implica reorganizar nosso pensamento e reconstruir o conceito de confiança tão esquisito na vida contemporânea da metrópole. A gente foi educada para seguir as boas maneiras e se proteger da “maldade” dos desconhecidos, então, por decência, solicitar permissão para intervir no espaço e nos pertences do outro, e, em consequência não permitir que ninguém mexa nos nossos pertences, nós não pegamos nada sem primeiro pedir permissão, não atravessamos a porta se não formos convidados, inclusive conheço pessoas que recusam sentar na beira da cama se não ouve uma indicação. O respeito à propriedade privada torna-se um exagero que às vezes nosso caro anfitrião pode interpretar como uma dificuldade de compreensão comunicativa e até mental. A gente entende como um “abusado” aquele cara que pega as coisas sem pedir permissão, então nós achamos que esse “ficar à vontade” pode nos conduzir a adotar uma conduta errada na qual invadimos o espaço do outro. Coisa séria esta das diferenças culturais, “fique à vontade” é um jeito de oferecer confiança é conforto, também a sugestão de se virar sozinho nos detalhes simples da cotidianidade com os recursos que você tem à mão. Com certeza não pode abusar dessa generosidade, cada qual tem seu limite, a arte do hospede e a arte do anfitrião tem suas regras em cada cultura e cada um descobrirá somente na convivência.

Só para esclarecer, nós temos expressões que pode gerar confusão: “haga lo que se le de la gana” “voy hacer lo que se me de la gana”, “hacer la voluntad del otro”, são expressões próprias do espanhol para  salientar a teimosia de alguma pessoa ou a insubmissão de nossa própria vontade. A palavra vontade para nós significa poder, força e determinação. Finalmente a pessoa que tem o costume de viajar procura garantir sua segurança pessoal, malandro tem em todo lado e acho que o estrangeiro não é ingênuo, conhece o cheiro do perigo. Agora, há brasileiros e brasileiros, alguns gostam de falar e de preguntar de tudo, até opinar com excessiva familiaridade de nossa conduta, outros não. Há estrangeiros que não sentem a vontade de falar sobre certos assuntos.

Então, para encerrar: você brasileiro bonzinho, dê um tempo para o estrangeiro compreender a expressão “fique à vontade”, ajude ele a aceitar a confiança que você oferece, e você estrangeiro, se achar uma pessoa boa fique a vontade, aprenda com a generosidade deste povo, eu acredito que quando você voltar para sua terra sentirá vontade de oferecer a outro essa generosidade com a qual foi acolhido nestas terras hospitaleiras.

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Irmãos da farofa e o feijão

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Depois de um contato com a língua nativa, um estrangeiro no Brasil deve provar a culinária nacional

por Elizabeth Suarique, a Bete

Depois do choque da língua, o segundo contato cultural começa no estômago. Faminto, o estrangeiro ta ai, inocente de preconceito e cheio de fome, pronto para experimentar. No entanto, acontece que algumas comidas não têm referencia nenhuma nosso paladar. A farofa foi uma delas, uma farinha grossa, às vezes misturada com azeite de dendê ou banana e frutos secos.  A primeira vez fica grudenta na boca e você precisa engolir alguma outra coisa húmida pra não engasgar-se, ai o brasileiro que senta a seu lado e que o acha um cara esquisito, reconhece-o como um gringo ingênuo e sugere você passar a farofa sobre o feijão pra ficar mais gostoso. Desse jeito as culturas entram literalmente no seu corpo e na sua experiência.

Todos os dias o brasileiro de tudo canto come arroz com feijão. Eu já vi um brasileiro triste procurando nos restaurantes de Buenos Aires o cheirinho do feijão preto, de grão menor, de tempero apimentado e com o sabor da calabresa.  É ai quando ele sofre de saudade nas cidades do Rio de Prata ou pior ainda na Europa onde não têm o feijão como um prato principal. A comida é uma das primeiras saudades que o estrangeiro experimenta nas viagens, não é a família, os amigos, o clima, não, é a comida mesma que, na verdade, traz consigo a lembrança do tempero da mamãe, a paisagem dos cultivos nas geografias da sua terra, os amigos que você fez de cantos com climas e comidas diferentes. Nos últimos meses a politica foi um modo de enxergar as diferenças internas da população brasileira, eu já conheci cara que não gosta do futebol, que nem sabe dançar o samba, que não tem lido o Machado de Assis, mas ainda não conheci alguém que rejeite da sua refeição o grão pretinho e gostoso. E mais uma coisa, essa farinha branquinha é herança legitima da mandioca que os indígenas domesticaram e os africanos atemperaram. Então, isso me faz matutar na minha cuca de estrangeira como apesar dos conflitos raciais, políticos e musicais, a comida é uma síntese da composição cultural do Brasil. Olhe para o prato, as cores não tem a ver com a origem. Embora, um colega pode explicar para mim com absoluta certeza que a raça aqui no Brasil é questão de cor na pele.

Além disso, essa mistura do feijão e a farofa ainda nova para alguns dos nossos paladares são marca de indo-americanidade. Embora o brasileiro esteja convencido que pouca coisa tem em comum com os povos ancestrais do continente pelo extermínio impecável dos indígenas, segundo uma pequena pesquisa, o feijão tem sua origem na mesoamerica e a mandioca é alimento principal dos povos indígenas da Amazônia, o tempero da farofa foi o aporte africano. Então o meu primeiro encontro transcultural do Brasil foi no prato mesmo.

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Palavras de estrangeria

1 Comentário
O horizonte da cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul

por Elizabeth Suarique, a Bete

Pois é, sou sim, sou estrangeira nos trópicos do sul. Há uns vinte meses eu recorro o Brasil nos bate-papos, nas músicas, nos cheiros, na festa, nas cores. No começo, meu olhar provocava inveja no meu colega, pois eu enxergava aquilo que um brasileiro já mais perceve pelo fato do costume. Então, obrigada pelo convite, vamos falar do Brasil com palavras de estrangeria, num portunhol ruim, a língua falada que aprendi mesmo, cheia de erros, de maus entendidos e, o mais importante pra mim, no descobrimento das palavras que ganhei de cada um dos brasileiros com quem já falei. A língua deixou de ser gramática para virar um pastiche de sotaques, mas como é difícil aprender o português quando a metade das palavras não significa o mesmo de canto a canto, quando o gaúcho fala de tu e conjuga o verbo na terceira pessoa do singular.  A gente teve que aprender a falar errado, procurando apenas a melodia das frases ainda incompreensíveis mas que uma vez ditas,  garantem o pedido dos mantimentos, um cafezinho, o simplesmente a procura de um endereço.

A foto (em destaque) do site da prefeitura da cidade de Rio Grande, no extremo sul do estado brasileiro do Rio Grande do Sul – que seria meu lar por dois anos – era uma beleza só: os sobrados portugueses, as ruas românticas de pedras seculares, a praia mais longa do mundo, em fim, um povo hospitaleiro e abraçador. Ao começo, tudo de bom, chegamos ao finalzinho do verão, todavia dava para pegar banho de mar. Era uma novidade, eu tava de olho aberto em tudo o que puder, sou romântica e achava nas casas do centro da cidade uma ruindade dramática, até heroica, nos azulejos portugueses descascados pelo vento corrosivo do porto, o pôr do sol na frente da Biblioteca Rio Grandense onde nós experimentamos com assombro científico a curvatura do céu e, à noite como um presente de viagem, o cruzeiro do sul.

Uma palavra linda ao começo do outono: O luar, tesouro da língua portuguesa, sim possibilidade de traduzi-la ao espanhol, o luar, o luar, que coisa linda ver a luz da lua cheia no frio céu azul.  Aí as pessoas começaram nos advertir sobre o tempo e o vento. As semanas passaram e o sol fosse afastando. Chegou o inverno de cor verde fungo, cheiro de chimarrão e quentão, -ah, palavra gostosa-. Eu sou duma cidade de montanha, acostumada às baixas temperaturas, mas esta sensação de frialdade é distinta, eu não entendia o silêncio nas ruas no inverno, as pessoas de cara fechada, só o vento falava, na verdade, uivava, essa a palavra que eu ganhei, porque o vento nas regiões do sul uiva, soberano na estrada desprotegida, uiva, teimoso pois já ninguém acompanha ele. As janelas fechadas tremem, outro mundo opera no interior dos lares com a bombinha do chimarrão regurgitando no fundo da erva morna, levada de mão em mão noutro tipo de intimidade. Sair era um ato de resistência, meu corpo tentando adiantar o caminho e retando o vento que momentos antes venceu o frágil guarda-chuva agora cadavérico no solo alagado.

Então tive que me adaptar, com mais outros 17 colegas latino-americanos (lembrei-me do conto de Gabriel Garcia Márquez: diesisiete ingleses envenenados, pois achávamos que iriamos morrer). Os estrangeiros, coitadinhos, bora comprar cobertas, aquecedor, luvas e meia calça no comercio do Chuí. As roupas de verão ficaram no fundo da mala, até o sol lembrar-se deste estremo do Brasil. Assim, foi a rutina as caminhadas a praia com luvas e cachecol, no Brasil, bah, eu nem podia acreditar nisso mas, o que poderia se fazer na praia mais longa e distante do mundo?

Para nossa fortuna, chegou a primavera noutra cidade cor de lilás. Caminho pelas ruas e ainda percebo uma nostalgia do inverno impregnado no meu fôlego, mas acho que agora consigo compreender alguma coisa sobre O Brasil e sua diversidade, da sua extensa paisagem que muda de cores, de sons, de sotaques, de risos, de cheiros e de festa. Pablo Neruda disse “Levaram o ouro e nos deixaram o ouro… Levaram tudo e nos deixaram tudo… Deixaram-nos as palavras” eu digo: Obrigada pelas palavras, estas serão daqui em diante minhas palavras de estrangeria. Obrigada mesmo viu.

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