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Deu a louca no Julinho? – cap 27

atualizado 23 dezembro 2015 Deixar comentário
O local da primeira parada para compras

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Na última passagem, Julinho esterçara o volante numa entrada de um retorno num canteiro central de uma avenida de Río Branco. Fiquei surpreso com a guinada do carro, já que eu me ocupava com fotografias horizontais. Perguntei ao camarada se tinha dado a louca nele, se ele estava fazendo um caminho de volta. “Não…”, disse-me, de imediato. Ocorreu-lhe, muito a propósito, de ter visto uma necessidade que nos interessava bastante naquele princípio de percurso. Logo, pude entendê-lo. A luzinha acendeu em minha cuca: precisávamos de gelo para por na caixa de isopor com refrigerantes. O primeiro dia de viagem de nossa história contada pintava um céu com sol de rachar mamonas… Movimento de trânsito feito, veículo estacionado. Míope, só pude ler de perto a inscrição “Hielo”, numa fachada comercial. Sem mais delongas, entramos no estabelecimento. Melancias, fardos de bebidas e sacos de carvão para churrasco se destacavam no espaço de recepção. Ao fundo, uma infinidade de objetos para uso doméstico. Tudo muito apertado e colorido. Estávamos, a bem dizer, diante de um painel de primeiras e últimas urgências. Um monte de coisas amontoadas e expostas num balcão, tudo muito tradicional em termos de improviso e de cultura local. Do lado oposto do balcão, duas vendedoras-atendentes com expressão facial indígena, a quem eu me dirigi com falso pedantismo: “Tiene hielo?”. Como se eu dominasse o idioma, claro! Naturalmente, não avancei com o meu vocabulário de português mal falado. Julinho me ajudou um pouco. “Cuantos…?”. 60 pesos uruguaios ou 6 reais por uma barra de gelo. Nesta primeira parada para compras, aproveitamos também para perguntar sobre a ciudad mais próxima de Río Branco. Não que não soubéssemos. Perguntamos por perguntar mesmo, praticamos um pouco de intercâmbio linguístico-cultural. As vendedoras-atendentes, sem ressalvas, perceberam a nossa falta de jeito. Uma delas nos informou com cara de quem era a patroa da outra: o município de “Vergara…”, a nossa então próxima parada para visitação, “… es de aproximadamente 70 quilômetros”. Ah, sim. “Adelante…”, a fala da outra, num gesto auxiliar, suscitou um tico de existência sonora. “Oh, gracias…”, arrisquei-me. Don Julito, ao lado, não deixou por menos. Ele não perderia esta chance, né não? O jovem não se conteve: “Muchas, gracias… chicas… Hasta…”. “Hasta…”, uma delas respondeu sem esconder um olhar semifechado de timidez.

 (continua)

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Na posição de turista japonês – cap 26

atualizado 19 dezembro 2015 Deixar comentário
Vista embaçada de Río Branco

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Foram inúmeras as tentativas de fazer – em ato de trânsito – com que o câmbio obedecesse às intenções de Júlio Cesar Bregagnoli Martins. Assim, quando a terceira marcha pedia um deslocamento, a quarta pedia um movimento peculiar; na falta de um dispositivo de travamento na caixa de câmbio, a quarta marcha passou a depender de um esforço literalmente manual, ou seja, a quarta marcha de El fuca blanco se transformou em um caso crônico.  Num improviso, Julinho passou a utilizá-la segurando-a com toda a força da munheca direita. Tal um motorista de maquinário rural, el condutor segurava o vibrante volante de El fuca com a força do braço esquerdo e a quarta marcha, para sublinhar um drama, com a energia de seu braço direito. Buscávamos então uma saída de Río Branco, entre ruas de pedacinhos de concreto e estradas de saibro. “Nem bem pisamos em solo uruguaio, e o carro já nos apronta, hem, Julinho”. El condutor apenas riu mudo da situação; diga-se, a bem da verdade, notei no olhar do parceiro um riso curioso de satisfação. Em vez de ficar preocupado, o “senhor que só diz sim” nesta história contada me pareceu ter ficado incrivelmente mais feliz com o problema de câmbio. E se o carro quebra, ou melhor, e se a caixa de câmbio não suportar a viagem? Eram alguns de meus pensamentos então interiorizados. Aliás, creio que eu devo ter externado algo parecido a Julinho, a quem eu naquele instante me limitava a chamar a atenção. Estava na minha, meio ocupado com o horizonte lateral do veículo; na posição de turista japonês, eu tentava registrar uma fotografia com o carro em movimento. O alvo de um horizonte lateral era uma carretinha engatada num veículo uruguaio, que passava numa rua de saibro. Até me recordo de uma exclamação, percebi que a imagem tinha saído embaçada. “Cara, perdi a bagaça do foco…”.  Na hora de um segundo clique, Julinho esterçou o volante numa entrada de um retorno num canteiro central, à esquerda. Súbito, eu lhe perguntei: “Ué, vai fazer o caminho de volta…?”.

 (continua)

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A espírita 4ª marcha de El fuca – cap 25

atualizado 16 dezembro 2015 Deixar comentário
Uma visão do perímetro urbano de Río Branco

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Neste ponto da história contada, Julinho e eu vamos nos deparar com uma descoberta dita não muito feliz. Uma nota anunciada no capítulo anterior, com contornos de sensacionalismo barato. A permanência em Río Branco não duraria muito, consideremos. Não nos detemos além da conta nas imediações da Praça General Artigas; vide, El fuca blanco não ficou estacionado no local por mais de vinte minutos. A ansiedade para nos perdermos no fundão do Uruguai era enorme, que nos fez sair de um centro na direção de uma linha condutora que nos levaria a uma rodovia nomeada de Ruta 26. A sinalização, dada por um aparelho GPS, instalado num de nossos dois celulares, marcava poucas quadras para un punto fuera de la ciudad. Na real, não tínhamos mapa algum até aquele momento; o nosso itinerário – tão imaginário quanto o freio-de-mão de El fuca – indicava que depois da Ruta 26, vinha a Ruta 18, em sentido ao destino final da primeira etapa de nossa saga, a então e longínqua Montevideo. Isto é, daquele instante, tínhamos um chão considerável pela frente. Estrada para testar as condições mecânicas de El fuca blanco não faltaria. Aliás, será que o veículo suportará a viagem? Era a pergunta que começaria a não calar nos primeiros metros percorridos em solo uruguaio. Primeira, segunda marcha. Julinho, o notável condutor, fazia as manobras iniciais do percurso. Sem muito avançar o velocímetro que, ao contrário de muitos dispositivos de nossa máquina do tempo, funcionava de verdade. Cauteloso no perímetro urbano de Río Branco, o companheiro de viagem não ia além da segunda marcha, até que começou a engatar a terceira… Quando Julinho acionou a quarta e última marcha, vendo um horizonte sem quebra-molas e aberto pra uma acelerada mais funda, fomos surpreendidos: a quarta marcha não permanecia engatada na caixa de câmbio. Se não vimos tal detalhe nos inúmeros test drives realizados em Jaguarão? Se vimos, fizemos de conta que não vimos. Porra, em pleno início de viagem e com uma quarta marcha espírita? “E agora…?”, fiz a pergunta em voz alta e não me lembro se apenas a el condutor.

(continua)

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Da pacata ciudad de Río Branco – cap 24

atualizado 13 dezembro 2015 Deixar comentário
El fuca blanco nas imediações da praça General Artigas, em Río Branco

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Localizada no departamento ou estado federativo de Cerro Largo, Río Branco é considerada uma cidade pacata, cuja economia advém da pecuária, do turismo e da venda de armas por lojas de free shops voltadas ao público brasileiro, segundo as más e extensas línguas. Com uma população aproximada de 13 mil habitantes, o município deve seu nome ao brasileiro José Maria da Silva Paranhos Júnior, o famoso Barão do Rio Branco. Pois bem, este dado histórico ou esta nota de rodapé passava longe de nosso horizonte na tarde de sol do primeiro dia do ano de 2014. Na ocasião, curtindo a nossa primeira parada oficial em solo uruguaio. Parada que não durou muito. “Então, Don Julito, preparado…?”. Minto, foi eu quem ouvi tal fala de ansiedade, camuflada de pergunta banal. “Então, Redatorrr, preparado…?”. O parceiro de viagem me fez a pergunta no instante em que nos recolhíamos para o interior de nossa máquina do tempo. Estávamos nas imediações da Praça General Artigas, onde tiramos algumas fotografias e instalamos um chip de telefonia uruguaia num celular, que não pegou direito num primeiro ato; um problema que, por hora, não nos causou muita preocupação. “Bora, Redator?”. El condutor atravessou meu pensamento e me chamou a atenção novamente, quando ambos nos movimentávamos para colocar os cintos de segurança e nossos respectivos traseiros nos bancos; quer dizer, os cintos não encaixavam na peça de travamento, que, na realidade, não existia em nosso veículo; assim, a estratégia era contornar os cintos por sobre o corpo pra criar uma aparência positiva diante da fiscalização policial ou de trânsito. Que os leitores fanaticamente éticos e excessivamente metódicos nos perdoem, mas não tínhamos escolha. A aventura no País das Políticas de Vanguarda estava apenas começando, e um pouco de adrenalina e risco não nos faria mal, isto é, é de se supor que não correríamos inúmeros riscos durante um longo percurso sem um dispositivo de segurança importante. As condições mecânicas de El fuca já são conhecidas. Uma descoberta, porém, não muito feliz, assim de cara, viria à tona nos primeiros metros após a partida do centro de Río Branco. E não tinha nada a ver com os tais cintos de inexistente segurança.

 (continua)

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A 1ª parada em solo uruguaio – cap 23

atualizado 12 dezembro 2015 Deixar comentário
A primeira parada oficial em solo uruguaio: o centro de Río Branco

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

A nossa dita parada oficial de estreia em solo uruguaio foi marcada por uma dada fruição de expectativas. Como hablar…? Como pedir alguna información…? Como intercambiar ideas com os nativos sem o domínio da língua espanhola…? Foram algumas das pré-ocupações mentais surgidas na iminência de estacionarmos El fuca blanco na Praça General Artigas, em ciudad de Río Branco. Quem nos acompanha de carona nesta história contada sabe, falamos do município vizinho a Jaguarão. Estivemos em tal localidade em data anterior; passamos pela cidade fronteiriça num giro prévio de test driver; no local, então testamos o imaginário freio de mão de El fuca e adquirimos um chip de telefonia celular da empresa estatal uruguaia. Lembram-se? E fora justamente o chip da Antel, o objeto que eu manuseara no momento em que Julinho e eu paramos para respirar e registrar fotografias para a nossa mochila de experiências e emoções vividas. Tinha de trocar o chip brasileiro pelo chip uruguaio; o meu dispositivo celular não era compatível com a realidade uruguaia. “Precisamos operar esta bagaça”, argumentei com Julinho, que já começava a se distanciar de minha fala. “Este celular poderá nos ser útil, caso a mecânica de nossa máquina do tempo não suporte a pressão da viagem”, continuei mesmo falando sozinho. Enquanto eu me ocupava com o celular, encostado numa das laterais de El fuca, Julinho observava a paisagem. Observava-o, naturalmente. Ele sem muito saber que, naquele instante cristalino, caminharia por uma calçada como um protagonista em potencial. Julinho ou Don Julito das gurias, começaria desde o primeiro instante a buscar uma audiência na tentativa de confabular ideias e sorrisos cativantes em meio a um horizonte desconhecido. A propósito, a paisagem que então notávamos era mesmo uma paisagem. Não havia praticamente ninguém naquele retrato cinematográfico, nenhum gato pingado, nenhuma mosca azul naquela praça de tons coloridos. As três e pouco da tarde daquele primeiro de janeiro de 2014, Río Branco parecia um pouco da impressão subentendida que tivemos de Río Branco dias atrás: uma colorida cidade fantasma.

(continua)

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Bem-vindos à República Oriental del Uruguay – cap 22

atualizado 26 novembro 2015 Deixar comentário
Uma vista dos free shops na fronteira do lado uruguaio

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

À nossa frente… um infinito projetado pela paráfrase de Nelson Rodrigues. Da janela aberta de El fuca blanco para o infinito. Na estrada… Nesta longa estrada da vida… foram mais duas de outras reminiscências palpitadas em minha memória radiofônica e recalcada de confesso caipira do interior de São Paulo. A milhas e milhas distante de… meu estado natal, em outro mundo. Em outro universo me senti literalmente, quando percebi Julio Cesar Bregagnoli Martins, o Julinho, a engatar a segunda marcha de nosso veículo. A passagem pela Ponte Internacional Barão de Mauá, que liga Brasil e Uruguai ficou para trás num gesto fotográfico de hasta la vista, meu companheiro. El fuca passara ileso pelo primeiro posto de fiscalização. E olhe que do lado hermano da fronteira há um considerável conjunto de free shops, lojas com produtos isentos de certos impostos; quem vive na região fronteiriça sabe bem do movimento de veículos e pessoas a cruzar a Barão de Mauá. O comércio é destacado ali, sobretudo em dias e horários comerciais. Não era bem, contudo, o caso daquela tarde de domingo, 1º de janeiro de 2014, em que saímos empolgados e esfuziantes na direção da então desconhecida terra de bonitos horizontes. Queríamos ver, respirar e sentir de perto a sugerida Terra das Políticas de Vanguarda. Numa fungada de segunda marcha de El fuca em solo estrangeiro, nos deparamos com uma tosca bifurcação. Logo na entrada do território da República Oriental del Uruguay, a indicação de trânsito sinaliza à direita os ditos agrupamentos de free shops; à esquerda ou bem dizer adiante, o início de uma rodovia estreia que sinaliza em seu marco zero a direção da capital do país. Montevideo, uma espécie de primeira etapa de nosso percurso. De onde estávamos até a capital deste visitado país: uma extensão mínima e estimada de 420 km em linha reta. Linha reta? É o que menos podemos prometer nesta saga, linha reta? Saga? Bem, a chamada saga vai pedir inúmeros episódios para comprovarmos ou não a qualidade mecânica de nosso veículo, outrora denunciada por um tal de Menino Barbado com quase quarenta anos; além de inspirar a ânsia de curiosidade e apreensão de seus tripulantes. Quantos desdobramentos? Não sabemos. Por hora, o que sabemos é que no próximo capítulo faremos a nossa parada de estreia em solo uruguaio.

 (continua)

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Sobre a Ponte Internacional Barão de Mauá – cap 21

atualizado 24 novembro 2015 Deixar comentário
Com El fuca durante passagem pela Ponte Internacional Barão de Mauá

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

O ronco do motor de El fuca blanco novamente abriria caminho entre outros veículos que pediam passagem, agora, na avenida 7 de Setembro ou à beira rio do centro histórico do município homônimo das águas turvas que ali transbordam. A três ou quatro quadras, já podíamos notar bem de perto um dos mais destacados monumentos históricos da fronteira: a Ponte Internacional Barão de Mauá, postada diante de nossos olhos estrangeiros de deslumbramento. “Muy, bela…”, disse-me Julinho sem deixar claro se falava mesmo da ponte ou se de uma garota que naquele instante atravessara à nossa frente num intervalo de um desafogar de trânsito. Estávamos subjacentes à ponte, numa via lateral que margeia uma das bandas da construção datada entre 1927 e 1930, depois de um tratado firmado em 1918 entre Brasil e Uruguai para pagamento de uma dada dívida de guerra; trata-se do primeiro bem binacional tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e reconhecido como primeiro patrimônio cultural do Mercosul. Uma edificação que homenageia Irineu Evangelista de Sousa, industrial brasileiro que nascera na região, a Ponte Internacional Barão de Mauá mede oficialmente 2.113 metros de comprimento, sendo 340 metros sobre o Rio Jaguarão, tendo 12 metros de largura. Na sua parte central existe uma via férrea com duas bitolas ladeadas por duas faixas para veículos de 3 metros cada uma; as faixas possuem ao longo de sua extensão duas calçadas laterais para pedestres. Uma dimensão de ferro e concreto que pôde ser panoramicamente notada no instante em que cruzamos com El fuca a Rua Uruguai que dá existência a sua extensão asfáltica. “Entra aqui, condutor”, eu disse a Julinho, desviando seu olhar e indicando um posto de gasolina ao lado. Minutos depois de enchermos o tanque El fuca, lançamo-nos com a nossa máquina do tempo num cenário a pintar um céu azul celeste e um sol ardido de verão. Basicamente, o percurso entre o lado brasileiro e o uruguaio foi feito em tração reduzida, até avistarmos o sinal de uma grande placa azul com a simbólica inscrição “República Oriental del Uruguay”. Enfim, começamos oficialmente a nossa viagem.

 (continua)

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O 1º retrato oficial da viagem – cap 20

atualizado 22 novembro 2015 Deixar comentário
Uma parada às margens do Rio Jaguarão

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

No retrovisor de El fuca blanco, eu pude ver a estátua de O Gaúcho, historicamente cravada num canteiro da Avenida 27 de Janeiro. Vira a imagem símbolo da cultura pampa se tornar cada vez mais diminuta na medida em que o nosso condutor pisava firme no acelerador do veículo. Eram três da tarde, se os caronistas se recordam bem. O sol batia forte, e a nossa dita “máquina do tempo” ecoava um barulho espalhafatoso ou extravagante que só os fuscas parecem ter. Do Jornal Pampeano, o ponto oficial de partida, a primeira parada não demorou a chegar. Ou melhor, a programação não fora muito bem definida. A proposta era ir e parar conforme a vontade, a necessidade ou a pertinência. Do local de partida ao extremo da 27 de Janeiro ondulam as águas turvas do Rio Jaguarão. As águas que banham as margens do município de Jaguarão, correspondente também ao limite fronteiriço entre Brasil e Uruguai; do outro lá do rio, está localizada a primeira cidade a constar de um ir e vir a ser constituído aos poucos. Uma, duas, três quadras do jornal até aquele “beira rio” foram um pouco mais de três quilômetros em linha reta. Do meu lado, notava alguns passantes enquanto pensava a respeito da vida e da necessidade do ser humano de viajar e viver lugares longínquos; era o máximo de abstração que eu me permitiria no princípio de um percurso sem duração determinada. Do lado esquerdo do copiloto que vos fala, Don Julito e sua dupla ou paradoxal função: se concentrar na direção de nosso veículo e, ao mesmo tempo, se distrair com o horizonte inédito que lhe pintava nos olhos de propagado dublê de galã de telenovela. Uma imagem foi clicada por um anônimo guindado às margens do Rio Jaguarão, a quem muito gentilmente pedimos um auxílio de um clique amigo para um registro não muito deveras inconfesso de posteridade. As nossas respectivas fisionomias puderam ser estampadas numa fotografia cunhada por nós de “o primeiro retrato oficial da viagem”. Não mais que alguns minutos e o nosso veículo foi estacionado; o breve desfile, a apoteose fugaz de El fuca por uma das principais ruas da Cidade Histórica durou menos do que gostaríamos que ela durasse, tal a emoção inicial da então “mais importante viagem de nossas vidas”.

 (continua)

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O princípio – cap 19

atualizado 19 novembro 2015 Deixar comentário
Narrador e Don Julito, em 1º selfie oficialmente narrativo

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Quantas vezes eu tentaria localizar El Loco Abreu a instantes da partida para o Uruguai? Perdi a conta de quantas vezes disquei para o celular do amigo, que num primeiro momento até sinalizava recebimento de ligação; num segundo ato, nem sinal de telefonia dava. Demorei para acreditar que o popular El Loco estava refugando a viagem da maneira mais surpreendente e, pensando bem depois, da maneira mais literária. Se o rapaz não queria viajar conosco, era só nos dizer, mas… mas que raios o fizeram aceitar o convite e na chamada hora “h” pular do barco, ops, pular de ou nem entrar em El fuca? É uma pergunta que, então, não evocava resposta alguma. Vale lembrar, o horário de saída para a viagem estava programado pras 12 horas, a partir do Jornal Pampeano. Precavido, começara a discar para El loco às 10 horas, se não me falha a memória. Discava… e nada. De tempos em tempos, reformulava a esperança de localizar o amigo do outro lado da linha. Na real, eu não imaginaria viagem alguma sem o “terceiro elemento”, o nosso dito guia-tradutor. Julinho e eu não nos considerávamos seguros o suficiente para avançar ao território do país vizinho? Posso responder por mim. Me considerava com bastante responsabilidade: o carro emprestado, o cuidado com o jovem primo-acompanhante, a minha própria vida etc. Desejo e zelo falavam por mim: como posso não pensar seriamente a respeito de uma visita a um lugar que eu só conhecia por notícias e de ouvir falar? 10 horas, 11 horas, 12 horas… O sol batia forte do lado de fora do escritório do jornal, quando mirei na direção de Julinho, ao mesmo tempo, me perguntando sobre qual posição tomar. Vamos ou não vamos? Quando vamos? Vamos… só em dois, mesmo? Claro, naquele instante eu não desistira de El Loco Abreu, que parecera mesmo ter desligado o celular… Incorreu-me pensar que El loco tivera um acidente vascular cerebral ou um imprevisto ou um enguiço na língua, sabe-se lá. 13 horas, 14 horas… 15 horas. Quando deu a famosa três da tarde, amarrei a cara e pronunciei em voz alta e solene de predestinado: “Dom Julito, vambora…”. “Bora, Narrador”, disse-me o projeto de escudeiro. Súbito, pegamos nossas coisas, atravessamos o limiar da porta do Pampeano e nos permitimos ao primeiro selfie da viagem; podem acreditar, o primeiro de nossos e outros retratos.

(continua)

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Alô alô, El Loco Abreu ?! – cap 18

atualizado 18 novembro 2015 Deixar comentário
pés de narrador em véspera de viagem

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Domingo, 1º de janeiro de 2014; o primeiro dia do ano não poderia começar melhor… No caso da maioria dos brasileiros, podemos supor. Para os tripulantes de El fuca blanco, o dia começaria com certo trabalho ou preocupação. Ou melhor, apreensão talvez seja a palavra mais apropriada para traduzir este momento. A tão aspirada viagem estava prestes a iniciar. “Uruguai, que país é este?”. Me perguntava, muito sinceramente, se naquele instante desejado, seria mesmo sensato irmos com um veículo de mecânica duvidosa para um destino então desconhecido; a ideia inicial seria tomar a capital Montevideo como ponto de referência para um contorno, indo, sem pensar no tempo ou no relógio, pela região central do país vizinho, projetando uma volta pelo litoral. Corrida simples. Pois bem, cessava os pensamentos, receosos ou não, toda vez que eu me deparava com alguma imagem a associar a vida a uma mola propulsora de sentidos. Ao lado, notava Julinho tranquilo. Muito tranquilo, diga-se. Nosso condutor leva jeito pra tranquilidade, pensei. “Nobre condutor, os equipamentos preventivos de socorro já estão em El fuca?”. “Sí sí”. “E os alimentos… a água…?” “También”. “Pegou parte dos Pesos uruguaios cambiados pra você levar consigo? Vai que eu perco a minha carteira…”. “Sí sí” de novo.  Tudo ou quase tudo já fora posto na parte traseira do veículo, dissera o senhor que só diz sim nesta história. A tarefa seguinte seria aguardar o ato oficial de partida, agendado para as 12h, horário de Brasília. Se lembram? Julinho e eu pernoitávamos no Jornal Pampeano; estávamos no chamado ponto zero havia alguns dias. El Loco Abreu, morador de Jaguarão, seguramente dormitou em sua residência. Aliás, o dito guia-tradutor, o terceiro elemento da tripulação, começaria a dar sinais de suspenses hollywoodianos. O amigo sósia de jogador de futebol havia prometido que chegaria ao Pampeano no instante combinado. Na dúvida ou precavido, duas horas antes do programado, revolvi ligar pra seu número de celular, para me certificar se estava tudo ok. El loco tinha o hábito conhecido de beber na véspera. Como a véspera se tratava de um dia comemorativo… Disquei… Nada de sinal. Ok, esperei um pouco. Minutos depois, disquei mais uma vez. Nada de sinal do celular daquele que eu considerava como “uma peça fundamental para esta viagem”. Discaria mais uma vez?

(continua)

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