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De carona na paisagem de Vergara – cap 37

atualizado 25 maio 2018 Deixar comentário
Diante de um dos primeiros retratos de Vergara

 

por Renato S. M.; colaboração de Aléxis Góis

Após uma necessária marcha ré às margens da Ruta 18, vimos bem, e com o carro devidamente estacionado rente a uma placa, a inscrição esperada ao longo dos últimos quilômetros rodados. Feito um breve retorno de trânsito, enfim. El fuca blanco entra com status de imponência na paisagem geográfica de Vergara, cidade-membro do departamento de Treinta y Tres. Eis a ciudad, disse a Julinho, que parecia nem piscar os olhos diante de um retrato inédito. Ou melhor, pronunciei um “eis la ciudad, Julito” e, em seguida, me perguntei com uma expressão caricata: bah, mas cadê a cidade…? Um riso mudo de palhaço sem circo brotou de meu rosto quando lancei a sadia provocação. Isso, parceiro. A gente se deparou com uma cidade bem pequena, não me diga que não tá vendo bem…? “Outra cidade pequena”, se me recordo direito. Se o companheiro de saga não me corrigiu, ao menos deve ter pesando em externar tal consideração de momento. A propósito: que os leitores caronistas de plantão não percam o sentido de nosso testemunho. Vergara conseguia num primeiro ato ser tão ou mais pacata que a vizinha Río Branco, visitada na paragem anterior. Com certo exagero, Vergara parecia um amontoado de chácaras ou um retrato de colônia de proletários de fazenda brasileira da segunda metade do século passado e sem sede visível, ou se apresentava como uma grande pastagem verde plantada numa área de banhado com casebres esparsos entre um canal de água e outro. A cidade dita, fomos logo captando as primeiras imagens para o nosso álbum particular. Clic… Enquanto Julinho manobrava a nossa máquina do tempo, desviando de buracos e de detritos numa estrada de chão (saibro, para ser preciso), eu me ocupava com o manuseio em movimento de uma máquina fotográfica embutida num celular. Clic… clic… Aparelho suspenso na extensão de um braço: passei a registrar quase tudo o que eu podia registrar em ação. A súbita moldura da solidão de um cão incitado pelo vácuo de nosso veículo, clic… a repentina aparição de um passarinho minúsculo no cume de um poste de eletricidade, clic… três pessoas que surgem como sombras num horizonte cada vez mais dentro de nosso alcance contínuo. Clic… clic…

 (continua)

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Entre a realidade e a poesia – cap 36

atualizado 18 maio 2018 Deixar comentário
Entre uma realidade retratada e um estado de poesia

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

De volta a Ruta 18, pensando alto numa iminente segunda parada. De Río Branco até Vergara, uma extensão aproximada de 70 quilômetros. Sem pressa alguma até lá. Até porque, a nossa máquina do tempo, El fuca blanco, não suportaria uma velocidade maior que 50km/h. Exatamente num pouco além do simbólico “meio do caminho”, entre uma realidade retratada e um estado equilibrado de poesia. Até Vergara, música que eu te quero música, uma terapia ou uma dose sequencial de hits de Raul Seixas. “Cowboy fora da lei”, “Eu também vou reclamar”, “Judas”, “S.O.S.”, “Metamorfose Ambulante”, “Maluco Beleza”, “Rock das Aranhas”, “Trem das sete”, “Por quem os sinos dobram” e a conhecida e replicada “Mamãe eu não queria”. Enquanto Julinho puxava as músicas lado “B”, eu me animava alternando as canções lado “A” supostamente mais tocadas, cantadas e louvadas pelos fãs. “Daqui a pouco, Vergara”, deixei escapar uma citação direta no meio de um refrão que o parceiro ecoava. Consultado o toco de mapa preso na base de um porta-luvas: faltava pouco para chegarmos… E como será Vergara? Quais serão as suas características principais…? A arquitetura de tal ciudad…? Haverá chicas hermosas? Haverá mais pessoas jovens do que idosas? Naturalmente, a imaginação tomou conta deste presunçoso narrador. De tanto ultimamente ouvir falar em Uruguai pelos meios de comunicação – os conservadores falando mal, os menos conservadores falando bem – criei comigo um Uruguai que só existia, de fato, na minha cabeça. Deixei Julinho então cantando sozinho e me concentrei no Uruguai. Vergara, em específico. Continuei a imaginar coisas. Quase incontrolável. Vergara, entre um real e um imaginário. Súbito, fui instado novamente a segurar a crônica quarta marcha, aquela que não permanece engatada. “Precisa de uma mãozinha?” Pois bem, el condutor estava com o braço direito dolorido, dirigindo apenas com o braço esquerdo. Ok. Mas para cantar Raul, meu parceiro é infatigável. El condutor só cessou de cantar quando notou que passara um trevo com uma placa indicativa. Não só parou de cantar, como tentou frear El fuca, que respondeu ao comando alguns segundos depois. Apesar da baixa velocidade, não conseguimos ler a placa. Chegamos?

(continua)

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A poucos quilômetros de Vergara – cap 35

atualizado 17 maio 2018 Deixar comentário
Num trecho destacado da Ruta 18

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

O veículo parou por completo. Ou foi Julinho que tirou o pé do acelerador? Não deu pra processar direito a junção dos fatos que antecederam aquele tlac… tlac… tlac… De concreto, aqui deve ficar claro para quem nos acompanha: o fim momentâneo de uma reprodução caricata e musical de “Mamãe eu não queria…”. Com El fuca blanco estacionado numa das margens da Ruta 18, a somzeira libertária de Raul Seixas fora cessada. Descemos então para verificar o que tinha provocado o “estranho barulho” em nossa máquina do tempo. Digo, apenas eu desci do veículo. Me joguei imediatamente no chão de um acostamento estreito na tentativa de identificar o por quê ou uma dada explicação para um ruído vindo de algum ponto específico de El fuca. Tlac… tlac…? De onde surgiu este barulho, Julinho? Na posição de mecânico deitado sem maca de rodinhas, me pus de costas pro chão com os olhos bem abertos. O que aconteceu…? evoquei mais uma fala de correspondência. Primeiro, inspecionei a lataria na parte dianteira do carro… Nada! – disse em voz alta como se correspondesse a uma prestação de contas a el condutor. Tente ver na parte de trás, o parceiro disse prontamente de sua posição de piloto. Na parte traseira… nada também! Tive a impressão de que o barulho tinha surgido do meu lado, no do copiloto. E agora, José? evoquei o desabafo de lugar comum da poesia brasileira. Dentro do carro, com a porta entreaberta, passei a tecer hipóteses que ia além da citação indireta de Carlos Drummond de Andrade. A poucos quilômetros de Vergara, algo como vinte quilômetros e poucos de distância de onde estávamos… Deve ter sido…? Neste ponto da narrativa, Julinho aciona o motor do veículo. Tromtromtomtomdaum… A meu pedido, El fuca blanco ficou ligado e, ao mesmo tempo, paralisado. Refiz pacientemente o percurso da inspeção. Se demorei pra contornar o veículo…? Foram cerca de quinze minutos de muita atenção para eu gritar lá de trás… Achei…! O problema? Um pedacinho de metal que se desprendera do para-choque traseiro em estado de decomposição.

(continua)

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Tlac… tlac… tlac… – cap 34

atualizado 17 maio 2018 Deixar comentário
Um horizonte da Ruta 18

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Um estranho barulho surgiu em nossa viagem. Fomos surpreendidos com um ruído vindo de algum ponto específico da lataria avariada de El fuca blanco. Se a cara de Julinho estalou de surpresa nesta passagem, como esbocei no capítulo anterior, a minha cara ficou ou deve ter ficado roxa de interrogação. Interiorizei: El fuca, enfim, emite sinais de sua propalada mecânica duvidosa… Súbito, fiquei contente. Muito contente, na verdade. Na verdade verdadeira, eu fiquei eufórico. Será que o carro vai quebrar…? Eu começaria a esboçar a explosão de um riso tosco na base de um asfalto quase despovoado na Ruta 18… Pensei alto e em tom de estranha torcida: vai quebrar…! Sem demora, soltei uma gargalhada seguida de engasgamento. Julinho – olhei pro seu semblante ao lado – estranhou meu rompante de demência aparente. Estranhou meu riso pretenso ou escandaloso ou fez cara de estranhamento instantâneo. Em meio ao meu autoproclamado e recorrente riso de louco varrido, Julito simplesmente cantava. Além do reconhecido barulho que dificultava qualquer comunicação dentro do veículo, o percurso entre Río Branco e Vergara seria marcado com um hábito que, estimulado por el condutor, adotaríamos ao longo de toda a viagem: cantar ou reproduzir em trânsito hits libertários de Raul Seixas. Nada de caso pensado, porém; apenas uma forma terapêutica de se integrar à paisagem dos pampas uruguaios que se abria diante de nós… Se me recordo bem, no instante em que percebi o princípio de ruído na lataria do fusca, Julinho reproduzia um refrão seguido de uma caricata melodia: “Hmmmm… Mamãe eu não queriiiiiia… (dom dom dom daum…)”, “Mamãe eu não queriiiiiia… (dom dom dom daum…)”, “Mamãe eu não queriiiiiia… (daum..) servir o e-xér-ci-to”. Se me recordo bem mesmo? Entre um refrão e outro, o barulho inesperado na lataria do volkswagem fabricação 1980 aumentou na proporção oposta que… Tlac… el condutor, percebendo a gravidade da ocorrência… Tlac… tlac… e notando a urgência de sua função premeditada, foi tirando o pé do acelerador, até que o veículo parou por completo. Tlac… tlac… tlac…

(continua)

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O fim de uma monotonia? – cap 33

atualizado 17 maio 2018 Deixar comentário
O retrovisor de uma chamada “Máquina do tempo”

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Aquela tentação de quem busca uma adrenalina, sacam? Quem já pulou o muro da escola na infância ou colou numa prova do ensino médio ou bebeu até cair na época da universidade sabe bem do que falo. A propósito, quero falar do espírito de aventura de Julio César Bregagnoli Martins, el condutor; trato ainda da quarta marcha manualmente engatada e de um pé firme no acelerador. Ansioso para que cheguemos logo em Vergara, Julinho? El condutor apenas riu, riu parecendo não ter me ouvido direito. Parecia que o parceiro de saga me olhava como se mirasse pro nada. Admitamos, mesmo que em tom de provocação não intencionada: el condutor olhou pro nada refletido no retrovisor do veículo e… riu. Deve ter rido do pedaço de mapa que restava entre minhas mãos ou da minha cara suada de tédio com o dito sucesso mecânico de nossa máquina do tempo; El fuca blanco, até este momento da história contada, emitia sinais de estrondosa perfeição mecânica. Parecia empolgado mesmo, el condutor? Pra variar, notamos Julinho empolgado. O projeto de escudeiro do século 21 parecia rir de qualquer coisa. Juro, caros leitores caronistas de plantão, até tentei decifrar aquele riso permanente de curinga do Batman no rosto enigmático do parceiro de viagem. Mecânica de El fuca, asfalto, sinalização e… riso quase perfeitos? Aliás, travar conversa dentro de um antigo fusca em movimento é pedir pra falar alto sempre. Quêêê…? O parceiro, de novo, fez que não me ouviu. O ruído do carro era demais. Quê cê falou…? Julinho tentou ser gentil. Eu, bem, eu desisti de me fazer entendido. Em parte, o barulho não deixou… Era a adrenalina da quarta marcha…? Como a precisar um ponto de vista, eu quase gritei com modos de amigo extravagante: “que asfalto bom da porra, hem!”. Asfalto bom da porra, reproduziu Julinho, num instante em que seríamos surpreendidos com um ruído estranho vindo de algum ponto específico da lataria avariada de nosso veículo.  Se a cara de Julinho estalou de surpresa nesta passagem, a minha ficou (ou deve ter ficado) roxa de interrogação: o fim de uma monotonia?

 (continua)

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Feito heróis de releituras de Jack Kerouac – cap 32

atualizado 17 maio 2018 Deixar comentário
Renato Renato e Don Julito, respectivamente em tráfego pela Ruta 18

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Trafegávamos em linha reta, uma reta que parecia não ter fim, depois de termos enfrentado instabilidades e após perdermos metade de nosso mapa-guia. Na estrada, feito simulados heróis de releituras de Jack Kerouac. Sentíamos na pele um mormaço vindo das margens da Ruta 18. No contraste, um sol de final de tarde a bater forte por sobre as nossas cabeças ou por sobre a lataria avariada de El fuca blanco. Explícito excesso de luz e de calor, e nosso veículo abrindo caminho num descomunal horizonte azul celeste. A esta altura, o relógio marcava algo em torno de 18 horas de uma tarde de domingo, 1º de janeiro de 2014. Estávamos a cruzar uma linha imaginária que separava os territórios do Departamento ou Província ou Estado de Cerro Largo e do vizinho Departamento de Treinta y Tres. O céu, que parecia bem baixo, fez ligação com o horário de verão deixado há poucas horas em solo brasileiro; praticamente não havia diferença do clima das 15 horas, horário corresponde ao momento de nossa partida em Jaguarão, com a posterior sensação térmica que lembrava esferas tropicais. Com uma previsível ameaça de por do sol que em algum instante iria acontecer, Julinho pisou fundo no acelerador e segurou firme com a mão direita uma destacada quarta marcha ao longo de uma dezena de quilômetros rodados. A quarta marcha, os leitores caronistas que nos acompanham desde capítulos anteriores sabem, não permanece engatada na caixa de câmbio. Por isso, ao perceber o parceiro de aventura cansado de tanto segurar o câmbio, me solidarizei com ele e, num movimento combinado, passei a segurar a quarta marcha com a minha mão esquerda. “Agora sim…”, Julinho deixou escapar um suspiro de alívio. Sua ficha demorou a cair para a liberdade de seus braços junto ao volante? “Agora sim…”, devolvi-lhe a frase sem bom humor. A partir de então, senti nos nervos do braço uma pulsação conectada com o ronco chamativo de um motor recém-reformado; uma baita responsabilidade a tarefa imposta. Meu ato de revezamento, fez com que el condutor ficasse momentaneamente com as suas mãos livres e alegres no entorno da direção do veículo.

(continua)

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Uma lufada de vento – cap 31

atualizado 15 maio 2018 Deixar comentário
Em trânsito na chamada Ruta 18

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Julinho esterçou El fuca blanco. Uma lufada de vento entrou no interior do veículo. O mapa, que estava em minhas mãos, foi parar no teto do carro. Sem querer querendo, el condutor esterçou o volante novamente. Estiquei um dos braços, na tentativa de resgatar o papel. Tragédia! Metade do mapa foi-se embora com o vento pra fora do veículo. A outra metade? Eu pude sentir gloriosamente presa no punho de minha mãe direita… Julinho esterçou o volante à esquerda, instante em que senti meu corpo se deslocar lentamente junto à porta de nossa máquina do tempo. Um deslocamento necessário… Havíamos ingressado na chamada Ruta 18, num entroncamento rodoviário, após trânsito rápido pela Ruta 26. Ruta? Lembrei-me da famosa Rota 66 ou Route 66, dos Estados Unidos. Uma associação de ideias que foi tema de conversa breve entre el condutor e eu. Sem muito saber da Rota 66, conhecida de filmes enlatados das TVs comerciais, não avançamos a respeito do tema. A nossa ruta – voltei-me para esta história contada – não possuía paralelos com a ruta dos imperadores decadentes do globo terrestre. A ruta aqui narrada era curta, sinuosa em alguns pontos do início de percurso, linha reta em outros, margeada por pastagens e plantações de grãos. A inscrição “ruta”, notem ou anotem, vem sempre acrescida de um número… Diga-se: eram várias rutas em questão. Fui rapidamente me dar conta do tópico, eram várias rutas a interligar o território uruguaio que, conforme dados oficiais, mede 176.215 quilômetros quadrados. Entre as principais rutas do País das Políticas de Vanguardas, pelo menos umas vinte delas merecem destaque. “Ruta…”, eu pronunciei, “… estamos na Ruta…?”. “… dezoito”, Julinho me socorreu com uma fala providencial. A indicação foi tirada do mapa vitimado pela lufada de vento, ou melhor, de uma fotocópia do território uruguaio extraído da página eletrônica do Google; o xerox do mapa foi impresso em papel jornal,  quase de improviso e suscitado no “último minuto” da preparação de partida de viagem em Jaguarão.

(continua)

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Ruta 26, passagem para Ruta 18 – cap 30

atualizado 14 maio 2018 Deixar comentário
Um retrato de passagem da Ruta 26 à Ruta 18

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Após breve passagem pela ciudad de Río Branco, trafegávamos pela Ruta 26, em direção à Ruta 18; Julinho seguia concentrado com o vibrante volante de El fuca blanco. Este narrador, numa confortável posição de copiloto, postado numa poltrona paralela a do parceiro de viagem, passeava com os olhos por cima do ombro de el condutor. Um cenário de mundo se abriu em grande escala no nosso visual. Ao nosso alcance, uma paisagem sem precedentes de vivência humana. Uma região de solo, em geral, fértil ou bastante utilizado para a agropecuária e atividades agrícolas começa a surgir pincelada de um conjunto de silos que suscitaram um retrato bucólico com uma moldura cinematográfica. Tratemos de um horizonte facilmente admirável, marcado por temperaturas amenas e chuvas com poucas variações ao longo do ano. Variações que iremos vivenciar com certo suspense, drama ou apreensão nos próximos quilômetros narrados. Julinho e eu contemplávamos uma parcela do que convencionalmente é chamado de Pampa, Pampas, Campos do Sul, Campos Sulinos e Campanha Gaúcha, termos referenciais ou descritivos de uma região pastoril de planícies com relevos (coxilhas), geografia típica do sul da América do Sul. Um bioma que, do início de nosso percurso em solo uruguaio, se estende à metade meridional do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, o Uruguai e as províncias argentinas de Buenos Aires, La Pampa, Santa Fé, Córdoba, Entre Ríos e Corrientes. Em outras palavras, nos colocamos diante de um bioma caracterizado por uma vegetação composta por gramíneas, plantas rasteiras e algumas árvores e arbustos encontrados próximos a cursos d’água, que não são abundantes. Um bioma tristemente ameaçado pela força predadora do homem e por sua inconsequente arrogância genérica, diríamos, em tom pretensamente ensaístico. Uma imagem evocada por dois autointitulados corações andarilhos no interior de uma máquina do tempo e de sua propalada mecânica duvidosa a aludir ou a testemunhar a qualquer momento e sem necessidade de precisão informativa espécies de plantas vasculares, com destaque para as gramíneas (capim-mimoso); centenas de espécies de aves (pica-paus, caturritas e anus-pretos etc.); uma centena de mamíferos terrestres (guaraxains, veados e tatus etc.) vinculados a um clima subtropical, traduzido de um olhar estrangeiro e confessadamente deslumbrante.

 (continua)

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Imagem aumentada da santa realidade – cap 29

atualizado 13 maio 2018 Deixar comentário
El condutor, em momento de exibição

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

A uma aproximada distância de mil metros de uma aduana e um medo não escondido de ver El fuca blanco e sua mecânica duvidosa barrados por uma blitz policial. Vão nos parar prematuramente, Dom Julio? Vão nos impedir de relatar a existência de um mundo mágico e pretensamente desconhecido por parte de nosso seleto público? Uma fatalidade de percurso, só que não… Não desta vez. O retrato frisado de espectros de fiscais presos ao meu horizonte não passou de uma imagem aumentada da santa realidade. Ao menos desta vez, não. Uhul, então ouvi um chiado cômico e inesperado de uma criança desmamada; Julinho não escondeu a empolgação de falso adulto depois da passagem pela aduana. Aliás, aparentemente, não vimos fiscalização alguma na aduana. O que eu havia considerado como espectro de fiscalização rodoviária, na real, correspondia a um grupo de pessoas que caprichosamente cruzaram o nosso caminho; pudemos vê-los de perto, tomando chimarrão e ar fresco em baixo de uma sombra de árvore ao lado da aduana, junto a duas motocicletas estacionadas. Lisos, leves e sorridentes, cruzamos pelo dito entreposto. Até pareceu que estávamos entrando naquele exato instante em solo uruguaio, marcados por um suspense de apelo dramático na despedida do perímetro urbano de Río Branco; como já ocorrera antes, a tensão da vez pareceu ser mais minha do que um sentimento compartilhado com el condutor, que ao meu lado não escondia o prazer por poder pisar fundo no acelerador de El fuca. “Pé na jaaaaca, Julinho”, caprichei na dicção. Com um protótipo de óculos Ray-Ban, importado da fortíssima e tradicional indústria paraguaia, o condutor da nossa máquina do tempo não perdeu a oportunidade de exibição: ajeitou a armação no rosto como se tivesse diante de um grande auditório, engoliu um pigarro mal ensaiado e engrenou uma paráfrase com uma peça cinematográfica de sucesso comercial. “De La poderosa motocicleta… para El poderoso El fuca blanco”. Primeira marcha, um movimento azeitado; segunda marcha, idem; terceira marcha… Neste ponto da viagem, a sensação era de que efetivamente havíamos começado a saga no país vizinho, teleguiados por um horizonte inédito que surgia à nossa frente.

(continua)

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Visões da Aduana – Cap 28

atualizado 13 maio 2018 Deixar comentário
A imprecisos mil metros de uma aduana, na saída de Río Branco

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Após rápida parada para compra de gelo e de intercâmbio cultural num mercadinho, estávamos a um passo da saída de Río Branco, rindo da performance de Don Julito com as chicas vendedoras, assunto que aos poucos foi ganhando status de memória. O hielo comprado já esfriava os nossos refrigerantes na caixa de isopor no banco traseiro do veículo; do lado de fora, batia forte um sol de final de tarde de um início de ano. O relógio marcava 17h30 quando nos aproximávamos de uma aduana, a segunda que encontramos instalada na ciudad. Horas antes, havíamos passado pela primeira, que fica numa base de atendimento da Ponte Internacional Barão de Mauá. Se da outra vez a passagem pela alfandega foi tranquila, desta vez não tínhamos muita certeza: será que vão nos abordar desta vez…? As aduanas – vale a consideração – são entraves obrigatórios nas regiões de fronteira; são locais onde produtos não originais de uma região pagam tarifas para poder entrar em outra. Julinho e eu então não sabíamos direito da função de uma aduana. Se o entreposto também funcionava como posto de fiscalização policial e tal. Era a nossa exata preocupação… Ou a minha. Vide o comportamento de Julinho… Julinho trocava friamente de marcha, desacelerando, sem precisar acionar a quarta e crônica marcha. Uma adrenalina de final de campeonato ou lance decisivo: em nosso visual, a alfandega se fazia cada vez mais perto; no horizonte, cones a dividir ou a organizar “ir” e “vir” de veículos. “A aduana parece estar vazia”, pensei alto. Minha miopia, que nesta história contada não tem nada de artigo de literatura, fez-se expressiva além da conta. Passei a literalmente ver coisas, envolvido pela intensidade do momento. Colei os óculos num rosto suado, e num piscar acelerado senti o brilho forte do sol a confundir a qualidade de minha visão. Uma confusão de luzes tomou a superfície de minha retina; na condição de copiloto, pisquei os olhos na tentativa de ver e informar melhor el condutor.. Se eu via bem…? A uma distância imprecisa de mil metros, comecei a ver coisas: espectros de fiscais presos ao meu horizonte numa pronta expectativa de barrar El fuca blanco e sua mecânica duvidosa. Vão nos parar, Don Julito… Vão parar com a nossa narrativa…? Será…?

 (continua)

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