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5/9 – A Cidade Constitucional – parte 1

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por Marisa Veiga

Acordar às seis e meia da manhã do dia cinco de setembro e levantar de uma cama tão aconchegante parecia um pecado. A cama do Alojamento da Escola da Administração Fazendária – ESAF – era extremamente sedutora, como todo o alojamento e a Escola em si. Mas era preciso tomar café antes da primeira atividade do dia.

Eu e a Companheira de Quarto J fomos em busca do refeitório. A companheira de quarto M trocou o café da manhã por mais um pouco de sono. No caminho pudemos observar melhor o lugar e a arquitetura. Concreto e espelhos d’água em um estilo bem brasiliense.

Alguma coisinha para comer e para beber – café! Eu ainda não me sentia totalmente acordada. Era necessária uma xícara grande de café para convencer o organismo de que eu havia dormido horas suficientes.

Pelo cronograma, a primeira atividade era ali mesmo na escola, no auditório principal. Para lá fomos eu e Companheira de Quarto J. Muitos alunos e alunas já estavam por lá com suas olheiras de noite mal dormida e o estado de alerta forjado pelo consumo café.

Uma mulher chamada Fabiana Feijó iniciou a sua fala. Palavras de recepção e boas vindas e apresentação da ESAF com um vídeo institucional padrão. Me surpreendi com o fato de a escola ter sido criada há tanto tempo, em 1973 e de a ideia de cursos de aperfeiçoamento serem ainda mais antigas, de 1945. A apresentação da estrutura física da escola que estava contida no vídeo era algo que estávamos observando e iríamos observar empiricamente ao longo daquela semana. Interessante pensar em como a educação para as políticas públicas no Governo Federal tem uma tradição de estar relacionada ao Ministério da Fazenda. Isso poderia dizer muito sobre aspectos que vivemos hoje, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão. Nem naquele momento, nem até o momento em que escrevo aqui.

O palestrante seguinte era um homem chamado Tobias. Tobias me parece um nome muito simpático e achei bastante engraçado Tobias ser Alemão. Tobias Kuehner, representante da GIZ – Agência de Cooperação Alemã. O português do Tobias era fluente e ele tratou de um tema bastante interessante pra mim: eficiência energética. Em especial, eficiência energética na própria ESAF. A ideia, ou melhor, os projetos que ele apresentou para que a escola se modificasse economizando financeiramente e ainda contribuindo com a manutenção de recursos naturais era algo realmente inspirador.

Como uma quase Gestora de Políticas Públicas formada foi um consolo sonhar com um futuro em que os prédios públicos, de atividades públicas pudessem ser mais sustentáveis e eficientes. Os dados que Tobias apresentou mostrou como a economia financeira seria bastante significativa no caso da ESAF. Quanto aos benefícios ambientais e sociais não podemos estimar com precisão, mas também seriam grandes. Esses choques de visualização de uma realidade que podemos mudar é algo essencial em nossa formação.

Lá pras onze da manhã já me sentia fadigada por estar sentada tanto tempo, mesmo levantando constantemente para tomar um copinho de água e contornar a baixa umidade local. Havia mais uma palestra programada para ainda antes do almoço.

A última palestra trataria de um tema que não domino e considero super importante: Educação Fiscal. Minhas expectativas estavam altas. Um homem chamado Marcos, com uma técnica interativa (apresentação de músicas seguidas de perguntas para alunos escolhidos de forma aleatória), parecia nos conduzir a reflexões importantes sobre a insatisfação da população brasileira com a forma de arrecadação e uso de impostos e taxas.

A intenção dele parecia muito boa. A primeira música que apresentou “Quem é Você”, da Banda Detonautas, era já minha conhecida. A segunda não conhecia, nem considerei tão agradável ao conhecer. Justamente sobre ela foi perguntada minhas impressões:

– E essa moça que parece uma socióloga, o que achou da música e do vídeo?

– Achei incômodos. Nos mostram uma realidade que não queremos ver – A música e o clipe tratavam sobre diversos quadros de miséria pelo país.

Pensei em dizer que eram apelativos, mas meu bom senso me aconselhou a ser neutra. Na verdade, estava incomodada por não termos sido instigados como estudantes universitários. A reflexão não foi aprofundada, permanecendo no senso comum.

Talvez meu incômodo estivesse agravado por fome, e noite mal dormida, ou até mesmo pela minha alta expectativa.

O importante é que era hora do almoço!

 

O auditório da Escola de Administração Fazendária, em Brasília

 

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Um café, por favor

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De uma padaria nortchense

por Jose Mochila

Saio ansioso de meu casulo para tomar um café vespertino numa padaria da cidade. Localizei-a numa de minhas caminhadas pelas ruas e calçadas irregulares de nosso cenário de mundo. Lembro-me de ter parado rente à porta do dito estabelecimento e perguntado sobre o uso do espaço para leitura e revisão de textos durante um café. Dois dias depois, eu já respondia a um tradicional “pois não, o que deseja” e descobria que o café da casa panificadora não é do meu gosto devido. O café é feito à máquina? Franzi o cenho com ar de surpresa na hora da fala da atendente. “Não tem café coado?”. Como se eu precisasse acrescentar: “Só tem café da máquina?!”. Diante de minha provável cara desfigurada, a atendente retribuiu a sua: a de quem, além de atendente, parece fazer a vez de dona do negócio. Aliás, ela expressou algo mais. Como se eu não tivesse sentindo o chão, a atendente com cara de patroa levou um dos braços na mira de uma máquina de fazer café. “É esta aqui!”. Claro, ela não chegou a tanto. Acredite, ela chegou a tanto.

Em vez de um café sem gosto de borracha, acabei aceitando um café com gosto de borracha. Assim são quase todos os cafés feitos à máquina. Ah, eu disse algo para tentar salvar a minha visita àquela padaria que curiosamente me escapa o nome neste instante. “Café com… Por favor, se der para acrescentar o leite no café”. Para mim mesmo, bem baixinho: “Com leite, para ver se corta o gosto de borracha”. Disfarcei, com receio de que minha voz interior tivesse escapado para a esfera das convenções sociais. Coffe, coffe. Creio que a mulher nem percebeu a expressão facial de quem luta diariamente para não engolir parte da realidade social que nos é imposta. Atenta à sua função, a atendente me perguntou ainda se eu queria “algo mais além do café”. Ou melhor, “se eu iria comer algo”. Eu respondi “só o café, por enquanto”. Ah, sim. Eu poderia esperar na mesa, que alguém iria levar o pedido, “pois sim”. Virei o rosto, e identifiquei o que à distância me pareceu um acento ideal.

Quando cheguei ao fundão da padaria, o sentimento foi semelhante ou ainda maior do que o da surpresa com a oferta única de café feito à máquina. As mesas identificadas à distância, pude notar, compunham um lugar que, a priori, me pareceu aconchegante. O que parecia ser quatro mesas entre outras mais, era apenas quatro mesas e nada mais. E digo mais? Assim que eu me sentei numa cadeira… Assim que eu alegremente abri um livro, um ruído afamado cravou em meus tímpanos. Uma televisão que eu não havia percebido antes; um aparelho com o áudio de desestabilizar qualquer concentração de leitura.

Tentei ler um trecho do livro que eu levei junto a um encarte, e nada. Tentei em seguida rabiscar algumas linhas e fazer algumas anotações de canto de página, e nada. Na tela dependurada na parede, um sujeito tagarelava com ares de quem adora entreter, tirar ou desviar o foco de trabalho das pessoas.

O pedido. Enfim o café chegou. Junto dele, uma base fina redonda para a xícara, o pires e um potinho com açúcar. Enquanto eu queimava o bico com o café, o chato da tevê tagarelava tagarelava. De bandeja para quem chegou até aqui: a nossa tragédia de uma tarde de serviço perdido. Deixei de lado a minha leitura e revisão de textos; fui incrivelmente sorvido pelas imagens da tevê, pela efusiva reprise de trechos editados de uma telenovela antiga.

Em tempo: simmm, eu consegui beber o café maquinado.

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Relatos de dias cinzentos – parte 2

atualizado 3 outubro 2016 Deixar comentário
Jaguarão vista da Ponte Internacional Barão de Mauá, que a liga à ciudad de Río Branco-URU

por Jose Mochila

Não me peçam pra sair deste Café maravilhoso! (Aqui na cidade há um Café maravilhoso). Não vou dizer o nome comercial, nem pagando um café eu digo! Só posso admitir que o Café fica no centro. Lá… Quase me esqueço, falo agora do próprio comércio. Sob a proteção de fantasmas inquietos, estou na companhia de um jornal. Pra quem não conhece: no estado brasileiro do Rio Grande do Sul há um diário. Existem dois, vá lá, porque mais de dois seria uma indecência, né não?! O jornal hegemônico é o mais sem vergonha de todos, provinciano – e poderia ser diferente? O fato é que não há jornais no Brasil que não sejam provincianos e… sem vergonhas! Porque para ser provinciano é necessário não ter um mínimo de vergonha na cara para admitir e defender teses bairristas como a que projeta a imagem de um povo feito um retrato único e sacrossanto em um ponto privilegiado de uma parede global; o privilégio não é só dos sulinos, claro. Em outro estado brasileiro, de onde brota o poder econômico do país, há pelo menos cinco diários sem vergonhas; um deles possui a inscrição editorial de uma família – ô jornalzinho! Só há declaração de políticos naquela marmota. Por um paradoxo, há quem tenha saudades daquela marmota. De onde falo mesmo? Ah, de um Café exaltado. Aqui, as atendentes são sempre amáveis; tem uma delas que até possui um brilho exótico no olhar… Peço o de sempre; aliás, como peço o de sempre, nem preciso pedir mais. As atendentes já sabem. O café com leite surge por telepatia assim que me acotovelo num balcão. Leio enquanto tomo café, tomo café enquanto leio; com o final da leitura, finjo que leio novamente. O café rende pacas, até demora a esfriar. A leitura rápida me deixa à vontade para observar o movimento social. Como entra gente chique neste Café! Cada uma! Cada o quê? Ih, sotaque de estrangeiro no sul vira alvo fácil pro bairrista mais próximo. Se eles me descobrem. E se os locais me localizam? Se estes me veem, o alvo fácil não será mais o estrangeiro leitor de marmotas impressas, sô! Num debate imaginário, os locais podem ser abduzidos por um sadismo de leitor de jornais de bairro. Se não existe gênero mais típico…? As atendentes vão e voltam; elas param pouco pra um dedo de prosa. Como trabalham! Devem ganhar por cada lasca de pele que lhe tomam diariamente? Claro, se as gurias tivessem um tempo de conversa poderíamos ter tirado essa dúvida. Uma dúvida que por hora nos cega a retina…

(continua)

 

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